Behrouz Mehri/AFP
Behrouz Mehri/AFP

Iranianos decidem hoje se Rohani terá novo mandato 

Disputa entre moderados e conservadores pode influenciar no processo de sucessão do líder supremo, Ali Khamenei

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2017 | 05h00

O Irã vai às urnas hoje em uma eleição presidencial marcada por uma acirrada disputa entre conservadores e pragmáticos. Segundo análises e especialistas, mais do que um presidente, os dois lados acreditam que quem vencer poderá determinar a linha do próximo líder supremo da república islâmica, quem tem a última palavra no país. 

Os últimos dias de campanha foram de intensa e atípica – para o país – troca de acusações entre os principais candidatos, o pragmático presidente Hassan Rohani, que tem o apoio dos reformistas e moderados, e do também clérigo Ebrahim Raisi, amparado pelos conservadores e, atualmente, o establishment. 

A corrida tinha seis participantes. Esta semana, duas desistências importantes – uma de um conservador e outra de um pragmático – buscaram reforçar os principais candidatos dos dois grupos. Todos foram aprovados previamente pelo Conselho dos Guardiões, que este ano rejeitou uma nova candidatura do polêmico ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad. 

Rohani, um respeitado clérigo, teve total apoio, em 2013, do líder supremo, Ali Khamenei. Amparado por iranianos que demandavam menos repressão, especialmente após dois mandatos do governo linha-dura de Ahmadinejad, Rohani elegeu-se no primeiro turno, com ampla maioria dos votos e carta branca para negociar com o Ocidente uma saída para o programa nuclear iraniano. 

Apesar de uma melhora da economia, muitos de seus eleitores demonstraram frustração com o que não foi alcançado. Embora seja o líder na disputa segundo pesquisas, Rohani foi perdendo terreno para Raisi. 

Na opinião do especialista em política e energia do Irã Manochehr Dorraj, o candidato conservador recorreu a um discurso populista da primeira década da revolução. “Muitos o veem como fora da realidade do Irã em 2017”, afirmou Dorraj, também professor da Texas Christian University. 

Raisi é o presidente de uma multibilionária organização que gerencia a Imam Reza Shrine, um complexo onde fica o mausoléu do imã Reza e é considerada a maior mesquita do mundo, na cidade sagrada de Mashhad. 

Há anos, Raisi é cotado para o posto do próprio Khamenei, de 77 anos. Recentemente, com as notícias de que a saúde do líder supremo está debilitada, seu nome ganhou força. 

Sinais. O fato de o establishment iraniano ter decidido apoiar Raisi, segundo Pejman Abdolmohammadi, professor da London School of Economics and Political Science, indica a expectativa por uma sucessão do líder supremo em breve. 

“Nos últimos 20 anos, o establishment quase sempre apoiou a renovação do mandato do presidente no cargo, porque isso garante sua estabilidade”, disse ao Estado Abdolmohammadi. A escolha de um presidente mais leal ao líder supremo garantiria uma transição de poder mais fácil. 

O próprio presidente Rohani é considerado um possível sucessor de Khamenei. Nos últimos dias, ele partiu para o ataque, criticando Raisi por ser radical e muito conservador e o acusando de má administração em Mashhad. “Se Khamenei morrer, será muito importante quem estiver no poder. Se for o presidente Rohani, por exemplo, ele poderá influenciar a transição”, diz o professor. 

O líder supremo não manifestou abertamente sua preferência por Raisi, mas declarações de pessoas próximas a ele apontam sua simpatia pelo clérigo. Abdolmohammadi lembrou que em 2009 Khamenei manifestou abertamente o respaldo à candidatura de Ahmadinejad contra o reformista Hossein Mousavi. 

No entanto, logo após as eleições, a população tomou as ruas em protestos contra o que considerou resultados manipulados em favor de Ahmadinejad. Os atos foram duramente reprimidos. Dessa vez, o líder supremo optou por não emitir nenhum comunicado oficial. 

O Ministério do Interior anunciou ontem que a divulgação do resultado será gradativa. No início da semana, a informação era de que ele seria divulgado de única vez. Se nenhum candidato tiver mais de 50% dos votos, haverá segundo turno. 

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