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Iranianos estão céticos com fim de sanções

Nas ruas da capital Teerã, recepção da população à implementação do acordo nuclear é fria

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Thomas Erdbrink / NEW YORK TIMES,
O Estado de S. Paulo

18 Janeiro 2016 | 02h00

TEERÃ - No dia em que as terríveis sanções internacionais contra o Irã foram suspensas, a televisão estatal abriu o noticiário da manhã com uma matéria sobre vacinação infantil. Não havia jovens agitando bandeiras ou multidões em festa pelas ruas da capital: apenas o movimento normal das manhãs de domingo, em que a semana de trabalho iraniana se inicia.

A recepção bastante contida dada ao dia da “implementação”, quando o acordo nuclear foi finalmente concluído e o Irã estava livre para voltar a fazer parte da economia internacional, refletiu as inúmeras decepções e promessas não cumpridas que os iranianos experimentaram nos dois anos durante os quais as negociações se arrastaram. Embora o governo falasse do acordo para animar as esperanças do povo, poucos esperavam ver alguma melhoria.

“Não vi nenhuma animação”, comentou Ali Shoja, faxineiro de um prédio de escritórios no metrô de Teerã, a caminho do trabalho. “Eles falam na entrada de bilhões de dólares, mas como no passado, não acredito que esses dólares cheguem ao meu bolso”.

Nem mesmo a troca dos sete iranianos que se encontravam em prisões nos Estados Unidos pelo repórter do Washington Post, Jason Rezaian, e três outros americanos presos no Irã, despertou algum interesse.

A televisão estatal tinha suas próprias razões para minimizar o feito. O fim das sanções é um sucesso para o governo do presidente Hassan Rohani, mas veio com um preço para o regime. Desde a assinatura do acordo, em julho, o Irã precisou desativar mais de 12 mil centrífugas, tirar do país praticamente todo o seu estoque de urânio enriquecido, e desmantelar o núcleo do seu reator a água pesada. Muitos membros do regime, particularmente os da linha-dura, consideram que é difícil apresentar o acordo como um vitória, principalmente quando, em contrapartida, foi preciso abrir mão de tanto.

Oportunidades. O governo, em conflito com a oposição mais intransigente, prefere concentrar-se nos ganhos para a economia que o Irã pode esperar agora que as sanções, algumas em vigor desde 2007, foram levantadas. E Rohani também não deixa de enfatizar em todas as oportunidades que, durante o seu governo, o Irã saiu do isolamento.

O ministro do Exterior da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, planeja uma segunda visita ao país; o presidente chinês, Xi Jinping, irá Teerã no dia 22; e Rohani será recebido na Itália e na França após a visita de Xi.

No centro dessa atividade diplomática estão as grandes vantagens do acordo nuclear: os vastos recursos naturais do país, que vão além do petróleo e do gás, e o acesso a um dos últimos mercados mundiais ainda inexplorados. Já foram feitos vários negócios, à espera do levantamento das sanções.

Rohani gosta de chamar o acordo de benéfico para ambas as partes, embora os conservadores, tanto do Irã quanto dos EUA, digam que apenas um dos lados tire proveito dele. Neste domingo, ele celebrou o acordo. 

“Com a implementação do acordo, todos estão felizes, exceto os sionistas, os belicistas, os semeadores da discórdia entre as nações islâmicas e os extremistas dentro dos Estados Unidos”, disse Rohani no Parlamento ao celebrar o acordo. “Todo o resto está feliz.”

Qualquer que seja o resultado desse debate, o Irã poderá indiscutivelmente voltar a vender seu petróleo e a realizar transações financeiras internacionais. Mas enquanto Europa e Ásia se preparam para obter seu quinhão da bonança, empresários americanos - principal país que intermediou o acordo - ficarão de lado observando.

O apetite de investimentos e de importações do Irã vai além do setor de petróleo e gás. Suas autoridades afirmam que precisam pelo menos de US$ 150 bilhões e talvez mais, para que o petróleo bruto continue fluindo nas próximas décadas. “Basicamente, precisamos de tudo: centenas de aviões, novos portos, a modernização da infraestrutura”, disse Saeed Laylaz, economista próximo ao governo de Rohani.

Obstáculos. As companhias americanas mostram-se interessadas, mas as sanções que datam de 1984, quando o Irã foi acusado de patrocinar o terrorismo, as obrigará a trabalhar por meio de subsidiárias. Em virtude disso, previu um analista, companhias europeias e asiáticas dividirão o mercado iraniano entre si.

Com algumas exceções, há ainda um embargo comercial americano ao país, impedindo em grande parte que a maioria dos americanos faça negócios com o Irã e vice-versa. Embora as instituições financeiras iranianas mais uma vez devam ter acesso ao sistema bancário internacional, em geral não poderão utilizá-lo para transações com ou nos EUA.

“O Irã já sofria sanções antes da questão nuclear; e as oportunidades de negócios que os EUA poderão realizar com o país continuarão bastante limitadas, quase como agora”, afirmou Farhad Alavi, sócio-gerente do Akrivis Law Group, empresa sediada em Washington, especializada em direito na questão de sanções e de controles das exportações.

O Irã cumpriu as exigências previstas no acordo nuclear a uma velocidade alucinante, algo que os analistas atribuíram ao desejo de Rohani de levar este triunfo às cruciais eleições parlamentares em fevereiro. Mas houve mais uma razão: o regime xiita está próximo da falência.

Os iranianos veem sinais disso em toda parte. “Meu marido é dono de uma loja de casacos femininos, e não vendeu uma peça nas últimas semanas”, disse Mojgan Faraji, ex-jornalista, desempregada. “A implementação do acordo terá, na maior parte, um impacto psicológico positivo”, observou. “Depois disso, teremos de esperar para ver se o poder aquisitivo das pessoas aumentará.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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