Irlanda ameaça travar Brexit por impasse aduaneiro

Dublin quer Irlanda do Norte no mercado comum, mas unionistas que apoiam coalizão de May rejeitam barreira comercial com Reino Unido

O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2017 | 05h00

DUBLIN - O governo irlandês ameaçou neste domingo, 26, travar as negociações sobre a saída do Reino Unido da União Europeia caso Londres não garanta que não haverá barreiras físicas na fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte. Com o Brexit, os britânicos sairiam do mercado comum, o que significaria a volta dos controles de fronteira.

Phil Hogan, comissário da Irlanda na UE, declarou ontem que seu país “continuará jogando duro” em relação à ameaça de bloquear as negociações. O problema é que a coalizão de governo da primeira-ministra britânica, Theresa May, depende da boa vontade do Partido Democrático Unionista (DUP, na sigla em inglês), que não aceita que o território viva sob regras diferentes do Reino Unido. 

O governo irlandês argumenta que a região se beneficia economicamente da abertura da fronteira, tanto que a maioria da Irlanda do Norte votou pela permanência na UE. “Se a Irlanda do Norte permanecesse na união aduaneira ou no mercado único, não haveria problemas em relação à fronteira. É muito simples”, afirmou Hogan ao jornal britânico The Observer

O governo irlandês quer uma garantia por escrito de Londres de que nenhuma barreira física será construída na fronteira entre as duas Irlandas. Com os muros viriam postos de controle de passaporte e alfândega.

O ministro de comércio exterior do Reino Unido, Liam Fox, rejeitou imediatamente a exigência irlandesa. Segundo ele, a questão da fronteira irlandesa será tratada somente depois que um pacto comercial entre o governo britânico e o bloco europeu for alcançado.

“Não queremos que haja uma barreira física, mas o Reino Unido deixará a união aduaneira e o mercado comum”, disse Fox. O secretário britânico admitiu, porém, que poderia ser bem difícil abordar esse tema enquanto as relações entre o Reino Unido e a UE não ficarem claras.

O governo de May diz que os britânicos abandonarão a união aduaneira e o mercado comum assim que deixarem o bloco oficialmente. Assim, a fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda voltará a ser a linha que divide a União Europeia e o Reino Unido.

O DUP ainda é o maior obstáculo para um acerto. A líder dos unionistas, Arlene Foster, após reunião no sábado, afirmou que o fato de a Irlanda do Norte continuar ligada ao bloco europeu pela união aduaneira criaria uma barreiras entre o território e o Reino Unido – ponto central contra o qual o DUP vem lutando há décadas. 

A divergência criou um impasse. A posição da UE é clara. Antes de aprovar a abertura de negociações comerciais para o Brexit, no o ano que vem, o bloco precisa alcançar um acordo sobre a fronteira irlandesa. Bruxelas quer que o Reino Unido proponha alguma solução para o tema até a semana que vem, para que as negociações possam entrar em uma próxima fase.

Além da fronteira irlandesa, Bruxelas e Londres também negociam o futuro de 2,3 milhões de europeus que vivem no Reino Unido e um eventual tratado de livre-comércio que satisfaça ambos os lados – 45% das exportações britânicas são direcionadas para a UE. Por fim, a questão mais sensível é a conta do divórcio. Os britânicos querem pagar cerca de US$ 30 bilhões para sair do bloco. A UE cobra US 86 bilhões pelo Brexit. A maioria dos burocratas europeus defende a imposição de condições punitivas aos britânicos para dissuadir outros países de seguirem o mesmo caminho. / REUTERS

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