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Israel e Turquia, inimigos muito semelhantes

É JORNALISTA, ETHAN, BRONNER, THE NEW YORK TIMES , É JORNALISTA, ETHAN, BRONNER, THE NEW YORK TIMES - O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2011 | 03h 02

De sociedades agressivamente seculares dirigidas por elites ocidentalizadas, os dois países transformaram-se em Estados étnico-religiosos, engajados em lutas contra militantes

Israel e Turquia, dois importantes aliados dos Estados Unidos, estão se defrontando. Mas discordam quanto à fonte do desacordo. A Turquia diz que expulsou o embaixador israelense e cortou seus laços militares com Israel porque o país oprime os palestinos e se recusa a pedir desculpas pela morte de ativistas a bordo de uma flotilha turca que seguia para Gaza no ano passado. Israel, do seu lado, afirma que a Turquia tem como objetivo assumir uma liderança regional e assim está se afastando de Israel.

Embora as duas alegações tenham mérito, existe uma terceira explicação. Os dois países passaram por mudanças políticas incrivelmente similares nas últimas décadas: de sociedades agressivamente seculares dirigidas por elites ocidentalizadas, transformaram-se em Estados étnico-religiosos onde a resistência aos estrangeiros implica grandes compensações políticas.

Há dois anos e meio, o primeiro ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, censurou o presidente israelense, Shimon Peres, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça - logo depois da guerra de Israel em Gaza - dizendo a ele: "Quando se trata de assassinar, você sabe bem como fazer isso". Foi acolhido como um herói em seu país.

Um ano depois, o vice-chanceler de Israel, Daniel Ayalon, convidou o embaixador turco a seu gabinete, oferecendo a ele um assento baixo e não içou a bandeira turca. Antes de o convidado entrar, Ayalon disse aos cinegrafistas da TV israelense: " O importante é que as pessoas vejam que ele é baixo e nós somos altos e não há nenhuma bandeira turca aqui".

A posição de Ayalon só aumentou dentro do seu partido, o Yisrael Beitenu, dirigido pelo chanceler nacionalista Avigdor Lieberman. Mas não foi sempre assim. Ambas sociedades eram lugares diferentes, quase da mesma maneira. E com o tempo estabeleceram uma relação calorosa nas áreas militar, comercial e de turismo. O surpreendente é como são similares - e mutuamente insultuosos - os caminhos que ambos empreenderam desde então.

Modelo. O fundador da Turquia moderna, Mustafa Kemal Ataturk, e o primeiro-ministro fundador de Israel, David Ben-Gurion, tinham muita coisa em comum. Não por acaso. Ben-Gurion, que estudou Direito em Istambul, adotou Ataturk como modelo e procurou construir uma sociedade moderna com as mesmas ideias e cidadãos "ideais" com poucos desvios na linguagem ou cultura. Ambos encaravam a religião como um desvio e a etnicidade como um problema. Como os curdos do leste da Turquia, os judeus iemenitas e marroquinos na periferia de Israel também enfrentam um desprezo oficial - mesmo que menos brutal.

Mas manter a religião à margem e maltratar as minorias pode dificultar o estabelecimento de uma democracia. Os herdeiros dos fundadores foram desalojados por revoluções eleitorais - em Israel, em 1977, e na Turquia, em 2002. Hoje, um nacionalismo religioso assumiu um papel central e cada vez mais vigoroso em Israel, dominado pelo Partido Likud do premiê Binyamin Netanyahu, e na Turquia pelo Partido Justiça e Desenvolvimento de Erdogan. As elites seculares que estabeleciam a agenda política e cultural há décadas perderam muito de sua influência.

"Frequentemente comparo as reformas de Erdogan em 2002 às eleições em Israel de 1977, que levaram o Likud ao poder", observou Alon Liel, ex-embaixador israelense na Turquia, que hoje dá cursos sobre a história dos dois países na Universidade de Tel-Aviv. "Na Turquia, a elite kemalista ignorou a liderança religiosa, a zona rural e os curdos, criando grupos de pessoas muito infelizes que se uniram numa nova oposição política. O mesmo ocorreu em Israel. Hoje, Erdogan e Netanyahu governam com uma base de apoio que é mais religiosa, mais rural e menos educada, onde honra e nacionalismo são importantes. Isso torna o relacionamento entre os dois muito difícil.

Como não árabes, eles criaram uma aliança com base no fato de serem outsiders. Mas é exatamente no campo da política externa que os dois países divergem, um se voltando para o Oriente, outro para o Ocidente.

A Turquia, embora seja membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), sente-se rejeitada pela Europa e renovada em termos de identidade muçulmana e Oriente Médio. Israel, cujos vínculos com a região estão desgastados, volta-se para a "nova" Europa, países como Polônia, mas também Romênia e Bulgária, onde o sentimento anti-turco existe desde a época dos otomanos.

Pressão. Washington, na esperança de restaurar os vínculos entre os dois países, vem pressionando Israel a ser mais conciliador na questão palestina, em parte para evitar um confronto na ONU sobre a questão palestina. E também está pressionando a Turquia a voltar atrás nas suas iniciativas para aprimorar as relações com Irã e Síria. Recentemente, Washington convenceu o governo turco a instalar uma estação de radar direcionada para o Irã, medida que também beneficiará Israel.

E existem outros interesses mútuos que podem ajudar a unir os dois países. Ambos estão engajados em batalhas contra militantes - Israel contra o Hamas e outros grupos palestinos, a Turquia contra os separatistas curdos. Ambos ocupam terras em desafio à comunidade internacional - Israel na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, a Turquia em Chipre. Além disso, embora pobres em recursos, Turquia e Israel têm história de sucesso econômico e são membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Mas os dois países terão de superar profundas tendências de suas sociedade. Como afirma Efraim Inbar, especialista em política turca na Universidade Bar-Ilan, "hoje, o nacionalismo na Turquia é étnico-religioso. O mesmo ocorre no caso do Likud. Nenhum dos dois presta muita atenção ao que dizem as pessoas de fora". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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