REUTERS/Darrin Zammit Lupi
REUTERS/Darrin Zammit Lupi

Itália tenta atuar na Líbia para diminuir imigração

Oposição italiana acusa governo de ‘hipocrisia’, já que foi a queda de Kadafi, com apoio de Roma, o início da crise migratória

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL / ASTI, ITÁLIA, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 05h00

ASTI, ITÁLIA - A crise da imigração vem levando o governo italiano a exercer um novo papel na Líbia, seis anos depois de ajudar na queda do regime de Muamar Kadafi. Desta vez, o objetivo da missão militar é o de frear a onda migratória que usa justamente Trípoli como porto de partida. 

Hoje, na Itália, a imigração divide a população. De um lado, grupos insistem que receber essas pessoas é um dever humanitário da Europa. Outros, liderados pela extrema direita, ganham cada vez mais espaço com o discurso de que o fluxo ininterrupto de migrantes precisa acabar. 

Em 2017, já foram 95 mil desembarques na Itália. Entre 2014 e 2016, 500 mil estrangeiros chegaram ao país. Os centros de acolhimento, segundo a ONU, estão lotados, com 200 mil pessoas. Isso sem contar com os 2,2 mil mortos no Mar Mediterrâneo que não conseguiram chegar no litoral italiano. 

O fluxo também está causando tensões entre Roma e as demais capitais europeias. O governo italiano acusa seus vizinhos e parceiros europeus de não estarem sendo solidários e de deixarem toda a crise nas costas da Itália. 

A oeste, Marrocos e Espanha mantêm um acordo firme de fechar fronteiras, com muros cada vez mais impressionantes. A leste, a Europa enviou ¤ 6 bilhões para a Turquia, em troca do fechamento da rota para a Grécia. Ao norte, os parceiros da Itália passaram a impedir a entrada de clandestinos e os controles são cada vez mais frequentes.

Bruxelas garante que está ajudando a Itália a lidar com o fluxo e destinou ¤ 900 milhões para o país. Roma alega que, apenas em 2017, gastará ¤ 4 bilhões para lidar com o fluxo de imigrantes.

Com as eleições marcadas para 2018, partidos sabem que o tema estará no centro do debate. Um levantamento da agência Ipsos indicou que, em 2014, apenas 3% dos italianos colocavam a imigração como um problema central. Hoje, são 35%. 

Em um esforço para demonstrar à opinião pública que está agindo, o governo italiano aprovou nesta semana o envio de barcos militares para as águas territoriais líbias para ajudar a Marinha local a lutar contra os contrabandistas. 

Para a oposição, o gesto é “hipócrita”, já que o caos inicial teria sido causado justamente pela intervenção militar italiana, em 2011, que desintegrou a Líbia.

Para algumas organizações internacionais, o envio de militares não soluciona o sofrimento das vítimas, já que as operações significam que milhares serão mantidos na Líbia, à mercê dos traficantes. “A Itália e os demais países europeus deveriam estar focados em aumentar as buscas e os resgates”, defendeu a Anistia Internacional. “Em vez disso, optam por se esquivar de suas responsabilidades e colocar em perigo as pessoas que eles dizem estar ajudando”, completou. 

No entanto, do lado do governo, a ordem também é de fechar o cerco contra as entidades de ajuda humanitária. Um medida adotada foi a de reforçar o controle contra ONGs que atuam no Mediterrâneo socorrendo os imigrantes e refugiados. 

A suspeita é que as entidades estejam, no fundo, ajudando os traficantes ao colocar seus barcos a serviço dos resgates. Para entidades como SOS Mediterrâneo, acusar as ONGs é a mesma coisa que “atirar em ambulância por estar socorrendo alguém”. 

Os europeus ainda ensaiaram lançar um plano de ajuda para lutar contra a pobreza nos países de origem da imigração. Mas, dos ¤ 2,6 bilhões planejados, o fundo comum conseguiu reunir apenas 10% dos recursos.

 

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