Jogo dos 7 erros

Com hiperinflação, escassez de bens essenciais e um governo em estado de negação, a Venezuela de hoje parece o Zimbábue de 15 anos atrás

The Economist

03 Abril 2016 | 04h00

Fazer compras num supermercado na Venezuela é como participar do esquete “Empório dos Queijos Velhos”, da trupe britânica Monty Python. “Tem leite?” O balconista faz que não com a cabeça. Açúcar? Não. Café? Não. Sabão? Não. Farinha? Não. Óleo? Não. Quer dizer que vocês não têm nenhum dos produtos que o governo venezuelano considera tão essenciais que resolveu tabelá-los, obrigando os comerciantes a vendê-los abaixo do preço de custo? Pois é.

Pobres dos que fazem fila do lado de fora, na esperança de ver encostar no pátio do supermercado um caminhão carregado de alguma coisa – qualquer coisa. Yesenia, uma mulher de meia-idade que mora numa cidadezinha próxima a Caracas, levantou à meia-noite, pegou o ônibus para a capital, entrou na fila às três da madrugada e às dez da manhã continuava esperando. “É duro. A gente fica debaixo desse sol. Nem café da manhã eu tomei.” Por que, em sua opinião, o desabastecimento é tão grave? “O governo faz confusão.”

É uma avaliação benevolente. O governo da Venezuela gasta a rodo, subsidiando todo tipo de coisa – de habitações rurais a sacos de arroz. Como não tem condições de arcar com esses gastos, sobretudo agora que o petróleo está tão barato, o jeito é emitir dinheiro.

Quem faz um saque nos caixas automáticos de Caracas recebe notas novinhas em folha, com números de série consecutivos. A última vez em que o autor dessas linhas viu algo parecido foi no Zimbábue, no início dos anos 2000. De acordo com projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), a inflação venezuelana deve chegar a 720% este ano, índice registrado em 2006 no país africano. Dois anos depois, a hiperinflação era tão galopante que os mendigos torciam o nariz se alguém quisesse lhes dar notas de um bilhão de dólares zimbabuanos como esmola.

Emergência. A Venezuela caminha para se tornar um Zimbábue? Culturalmente, as diferenças são enormes, mas as semelhanças políticas são de mau agouro. Em ambos os países, a emergência de um líder carismático revolucionário teve consequências desastrosas. Robert Mugabe governa o Zimbábue desde 1980. Hugo Chávez presidiu a Venezuela de 1998 até sua morte, em 2013. 

Embora venha dando continuidade às políticas de Chávez, falta ao atual presidente venezuelano, Nicolás Maduro, o tirocínio de seu patrono político. 

Sem se preocupar em pagar indenizações, Mugabe confiscou grandes propriedades agrícolas, levando à bancarrota o setor mais importante da economia zimbabuana. Chávez expropriava empresas a torto e a direito, às vezes chegando a fazê-lo ao vivo, em seu programa de televisão. A certa altura, demitiu 20 mil funcionários da estatal de petróleo PDVSA, substituindo-os por 100 mil seguidores políticos seus, tão leais quanto incompetentes. A função de alguns deles era costurar camisetas revolucionárias.

Em 2000, Mugabe perdeu um referendo, mas fraudou as eleições seguintes para evitar que a oposição – que então tinha o apoio da maioria da população – o tirasse do poder. Os chavistas perderam as eleições legislativas de dezembro, mas usam os poderes presidenciais e o controle que têm sobre o Tribunal Supremo de Justiça para neutralizar a oposição – que agora lidera com folga as pesquisas de opinião.

Mugabe organizou uma milícia rastaquera, reunindo “veteranos de guerra”, para intimidar seus adversários. Chávez estimulou a formação de gangues nas favelas venezuelanas, os “coletivos chavistas”, que se empenham em aterrorizar a oposição. No dia 5 do mês passado, gangsteres montados em motocicletas rodearam a Assembleia Nacional e picharam em suas paredes frases como “Chávez está vivo”. Os policiais que estavam no local nada fizeram para impedi-los.

Mas o que realmente aproxima os dois regimes não é o recurso à ação de vândalos, e sim a incompetência na condução da economia. Ambos compartilham da crença de que é possível comandar as forças de mercado tal como se faz com as tropas do Exército num desfile militar. Num caso, como no outro, os resultados similares: desabastecimento, inflação e queda acentuada nos padrões de vida.

No início dos anos 2000, Mugabe – que, assim como os chavistas, diz governar para os mais pobres – congelou os preços de uma série de itens de primeira necessidade, a fim de torná-los “acessíveis”. Em pouco tempo, os produtos sumiram das prateleiras. 

Nos dois países, os subsídios que deveriam garantir o funcionamento dos controles de preço são frequentemente desviados. Em vez de vender mercadorias ao preço – de banana – oficial, os fornecedores preferem canalizá-las para o mercado negro.

Informalidade. Ana, uma jovem camelô de Caracas, explica como funciona a coisa. A ambulante exibe uma embalagem de sabão em pó que oficialmente deveria custar 32 bolívares, mas que ela comprou por 400 e agora está vendendo por 600. Mesmo estando na ilegalidade, Ana conduz suas atividades à vista de todos, no meio de uma praça movimentada. Não muito distante de sua barraca, alguns ambulantes do interior negociam a aquisição de um lote ilícito de pacotes de fraldas. A viagem de ônibus até Caracas leva 13 horas e os ambulantes dizem visitar a capital quinzenalmente.

Em frente a um supermercado estatal, alguns soldados do Exército, equipados com coletes à prova de bala, cassetetes e gás lacrimogêneo, impedem a entrada de uma mulher grávida. Não é dia de compras para ela, explicam. Cada venezuelano tem direito a dois dias por semana para fazer suas compras nesses estabelecimentos. Antes de entrar e adquirir sua ração de produtos tabelados, o cidadão precisa mostrar a carteira de identidade e ter as digitais examinadas.

Artimanhas. Acontece que medidas desse tipo não são páreo para a lei da oferta e da procura. Imagine-se um indivíduo ao volante de um caminhão-tanque, transportando gasolina subsidiada. O sujeito se vê diante do seguinte dilema: deve vender a carga legalmente na Venezuela, por US$ 100, ou seguir até a Colômbia, onde poderá vendê-la por US$ 20 mil? Como os policiais responsáveis pela patrulha da fronteira são mal remunerados, suborná-los não é problema.

Os empresários mais malandros encontram maneiras de contornar os controles de preço sem violar a letra da lei. No Zimbábue, quando o preço do pão era tabelado, as padarias acrescentavam uvas secas a suas receitas e chamavam o produto de “pão com passas”, que não estava sujeito ao tabelamento. Na Venezuela, a agroindústria arrozeira adicionou alho a seus sacos de arroz, batizou o produto de “arroz com alho” e passou a vendê-lo a preços não controlados.

Leis ridículas dão margem a episódios que seriam cômicos, se não fossem exasperantes. Um empresário venezuelano lembra da época em que não encontrava papel higiênico para comprar em lugar nenhum. Ligou para um amigo que tinha uma fábrica de papel. O colega disse que não podia vender um único rolo para ele, mas então acrescentou que, se o negócio fosse feito entre as empresas dos dois, poderia mandar para o amigo um pequeno caminhão, com um carregamento inteiro de rolos de papel higiênico. Saiu mais barato que os poucos metros do produto que o empresário pretendia comprar inicialmente.

Mugabe vive atribuindo os problemas econômicos do Zimbábue à ação de especuladores, traidores, imperialistas e homossexuais. Maduro, reconheça-se, deixa os gays de fora. Mas insiste em dizer que os capitalistas da Venezuela e seus aliados americanos promovem uma “guerra econômica” contra o país. O absurdo é patente: num caso, como no outro, quem agride a economia são seus próprios governos.

Descontrole. Pela taxa de câmbio oficial mais sobrevalorizada, dez bolívares valem atualmente um dólar americano. No mercado paralelo, a mesma nota de um dólar compra 1.150 bolívares. O Zimbábue abandonou sua moeda não muito tempo depois de a inflação mensal do país bater em 80 bilhões por cento, em novembro de 2008. Os zimbabuanos agora usam o dólar americano e outras moedas estrangeiras. 

Entre 1980, quando Mugabe chegou ao poder, e 2008, os salários reais perderam dois terços do valor. De lá para cá, graças à dolarização e ao fato de o regime ter abandonado algumas de suas políticas mais estúpidas, a renda se recuperou um pouco.

Para a Venezuela, a lição não poderia ser mais clara. Se o país não optar por um modelo melhor que o da “Mugabeconomia”, as coisas só farão piorar. Os oposicionistas querem uma mudança de curso. Talvez consigam se aproveitar do despreparo de Maduro. O presidente venezuelano contou que enfrenta o desabastecimento criando galinhas em casa – e diz que o resto do país deveria seguir seu exemplo. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER 

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Mais conteúdo sobre:
TheEconomist Visão global Venezuela

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.