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Jornalistas viram alvo na Venezuela

Luiz Raatz - ENVIADO ESPECIAL / CARACAS

01 Março 2014 | 06h 21

Profissionais de mídia que tentam cobrir os protestos venezuelanos sofrem ataques tanto de manifestantes quanto de policiais; pelos menos 62 foram agredidos ou tiveram seu equipamento roubado, e 41 foram detidos

Rafael é repórter fotográfico na Venezuela. Quando sai para trabalhar, principalmente nos últimos dias, nos quais violentos protestos de rua sacudiram o país, sempre toma medidas rotineiras de segurança. Entre elas uma bastante incomum: ele muda o sotaque e finge ser argentino. A perfeição com que executa a "manobra" confunde seus interlocutores, que o tomam por estrangeiro.

Segundo o profissional, que prefere não informar o sobrenome, a medida é necessária porque ataques aos profissionais de imprensa nas ruas são comuns dos dois lados do polarizado espectro político venezuelano. "Eu prefiro mudar o sotaque a correr o risco de sofrer alguma agressão", contou o fotógrafo.

Desde o começo dos protestos estudantis contra o presidente, Nicolás Maduro, ONGs de defesa da liberdade de expressão estimam que 62 jornalistas foram agredidos ou tiveram equipamentos roubados na Venezuela, Ao menos três foram presos – desses, dez eram estrangeiros. Apesar de terem ocorrido em menor número, houve agressões também contra meios de comunicação do Sistema Bolivariano de Informação, como é conhecido o aparato de informação estatal.

"Os meios de comunicação aqui na Venezuela têm feito uma cobertura com um pouco de receio da crise. O diagnóstico que temos feito é que desde 12 de fevereiro (quando ocorreram as primeiras mortes nos protestos) houve um bloqueio informativo no país", disse ao Estado Marianela Balbi, diretora executiva da ONG Instituto Prensa Y Sociedad (Ipys). "No dia 11, houve um comunicado enviado pelo Conselho Nacional de Telecomunicações (Conatel) avisando que qualquer publicação de imagem que estimulasse a violência seria punida com sanções previstas na lei."

Com a venda do canal privado Globovisión – que era o último canal venezuelano fortemente antichavista – para um empresário próximo ao governo, a população recorreu a canais de TV internacionais por um noticiário em tempo real da crise: o canal colombiano NTN24 e a versão em espanhol do canal americano CNN.

A resposta do governo foi voltar suas críticas à imprensa internacional. Ainda no dia 12, o NTN24 foi retirado da rede de canais fechados do país por transmitir ao vivo as manifestações. Na semana passada, os registros de quatro jornalistas da CNN em espanhol que estavam na Venezuela foram cassados pelo Ministério do Interior. Nos canais do Estado, o governo denunciava uma conspiração entre a a imprensa internacional, o governo americano e o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe para apoiar um golpe de Estado "da oposição de direita contra Maduro".

A desconfiança dos venezuelanos em relação à imprensa é tão grande que a reportagem do Estado teve a identidade questionada durante uma marcha da oposição em Caracas. "Como eu vou saber se você é mesmo jornalista ou se é um espião de Cuba?", questionou o aposentado Nelson León.

A ministra das Comunicações, Delcy Rodríguez, condenou, na semana passada, meios de comunicação estrangeiros por uma "distorcida" cobertura da violência "Estamos preocupados com a manipulação de imagens pela mídia internacional", afirmou a ministra. Ela disse que um jornalista da NTN24 mostrou fotos de bebês dormindo em caixas de papelão em Honduras como se fossem cenas da Venezuela.

"Nos canais abertos, há uma cobertura equânime, mas não há cobertura ao vivo dos protestos, o que por sua relevância noticiosa deveria acontecer", afirmou Marianela. "Além disso, sempre nos momentos em que há repressão a protestos, Maduro fala em rede de rádio e TV."

Jornais. Sobre os meios impressos pesa outra dificuldade. Com a escassez de dólares, o governo tem restringido o acesso à moeda americana para compra de papel-jornal. A medida afeta mais a jornais regionais, mas o El Nacional, um dos principais diários da Venezuela, diz ter papel para ir às bancas só até meados de março. A edição foi reduzida para doze páginas.

"Essa limitação à compra de papel-jornal é perversa porque de uma maneira diminui o espaço disponível para a cobertura informativa e do outro estimula a autocensura, uma vez que veículos menos críticos ao governo teriam mais facilidades", disse a diretora do Ipys.

A última fronteira da batalha do chavismo pela hegemonia comunicacional na Venezuela parece estar na trincheira digital. Sem cobertura ao vivo nas TVs e com os diários pressionados pela falta de papel, os venezuelanos recorreram às redes sociais em busca de informação. Sem o compromisso jornalístico, no entanto, multiplicaram-se fotos falsas e montagens, dos dois lados do espectro político, para justificar sua narrativa.

Estudantes que organizaram os protestos contra Maduro relatam ainda que tiveram dificuldades para publicar imagens no Twitter – a rede mais usada para compartilhar informações entre os manifestantes. A saída foi recorrer a programas que instalam nos celulares redes privadas para driblar os bloqueios.

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