Jovens brasileiros escapam de ataque em Cabul

Escola internacional é sitiada durante ofensiva do Taleban e adolescentes ficam quase três horas isolados na capital afegã

ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL / CABUL, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2012 | 03h03

"Mãe, minha escola está sitiada", dizia o recado que Isac enviou à mãe, por mensagem de celular, pouco depois do início da ofensiva do Taleban. Ontem. Isac e o irmão, Natan Portes, estavam na escola quando ouviram o barulho da primeira explosão, um som mais familiar do que eles gostariam que fosse, após sete anos no Afeganistão.

O foguete atingira as proximidades do Parlamento, a apenas três quadras da International School of Kabul (ISK), onde eles estudam, e havia atiradores e homens-bomba nas imediações.

A escola americana reúne 267 alunos, filhos de políticos e diplomatas afegãos e de estrangeiros que trabalham no país, como os jovens brasileiros de 19 e 15 anos, respectivamente. Na ofensiva de ontem, eles eram um alvo. A sirene de alerta da escola foi acionada minutos depois do início dos ataques, por volta de 14 horas, e os meninos, treinados para situações de emergência, já sabiam o que fazer.

Cobertura. Eles subiram com os outros colegas e professores para o último andar do prédio, fechando as portas antibomba atrás deles. Isolada, a cobertura tem um heliporto e uma sala de segurança com janelas fechadas e um banheiro, onde eles aguardaram sentados no chão durante quase três horas, ouvindo tiros e mais explosões.

Os seis prédios do centro de ensino têm a mesma infraestrutura. Por ser uma escola internacional, em caso de invasão ou ataque às suas instalações, os alunos e funcionários são instruídos a aguardar o resgate por helicópteros dos Estados Unidos ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no terraço, em um esquema previamente acertado. A segurança da escola recebe as instruções pelo rádio, diretamente da base da Isaf. Os meninos só foram dispensados às 16h48.

Gislene, mãe dos meninos, já estava em casa, e soube dos ataques pela mensagem do filho. "A gente já nem se preocupa mais. Acho que ficamos anestesiados com a violência aqui", diz. "Para nós é normal. Já subimos muitas vezes naquela cobertura", afirma Isac, que cresceu no Afeganistão.

Não faz muito tempo, um homem-bomba detonou os explosivos perto de um ônibus que levava soldados afegãos para casa, na mesma Avenida Darulaman que os insurgentes fecharam ontem, nas proximidades do Parlamento. A explosão foi tão forte que estilhaçou os vidros da casa onde a família mora, no bairro de Karte-Char.

A família vive há sete anos em Cabul, onde Gislene dirige um centro de pré-escola e reforço escolar para crianças pobres afegãs, também nas imediações do Parlamento. O cruzamento na esquina seguinte à da escola foi fechado pelas forças de segurança e dali eles trocavam tiros com os insurgentes.

Rotina. "Ouvimos a primeira bomba e as crianças, assustadas, correram para o pátio gritando: Bomba! Bomba!", diz a professora brasileira Liliane de Souza, que se mudou para Cabul há cerca de seis meses e estava na escola no momento dos ataques. Segundo ela, os pequenos já estão habituados com o barulho inconfundível desse tipo de explosão.

"Então, ouvimos os tiros. Muitos tiros! E, dez minutos depois, uma segunda explosão e um vácuo que fez o prédio da escola sacudir e o vidro das janelas trincar. Ficaram todos muito assustados."

As aulas na ISK e demais escolas foram canceladas por tempo indeterminado. Os escritórios do governo e das organizações internacionais em Cabul também devem permanecer fechados hoje.

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