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Judia morta em possível crime antissemita escapou de Holocausto

Filha de pai brasileiro, passaporte livrou Mireille Knoll de Auschwitz, mas ela acabou vítima de extremistas islâmicos

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 21h27

Milhares de pessoas se reuniram na quarta-feira, 28, nas ruas de Paris para prestar homenagem à aposentada judia Mireille Knoll, de 85 anos, morta a facadas e queimada em um crime de caráter antissemita. Filha de pai brasileiro, ela sobreviveu à ocupação nazista da França e evitou a deportação para o campo de concentração de Auschwitz graças a seu passaporte brasileiro, que lhe abriu caminho para uma fuga para Portugal, em 1942, aos 9 anos. Sete décadas mais tarde, foi vítima de um extremista.

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Mireille Knoll, que tinha mal de Parkinson e sérias dificuldades motoras que lhe haviam colocado em uma cadeira de rodas, foi assassinada na sexta-feira. O crime foi descoberto em razão de um incêndio criminoso provocado em seu apartamento. Na autópsia, legistas descobriram que ela havia levado 11 facadas. 

Como a aposentada já havia prestado queixa após um vizinho ameaçar queimá-la, a polícia prendeu dois suspeitos, um jovem de 29 anos, que vivia no mesmo prédio, um edifício para moradores de baixa renda no leste de Paris, e um morador de rua de 21 anos.

Nos primeiros depoimentos, o caráter antissemita do crime veio à tona, quando um dos suspeitos afirmou aos investigadores que o autor das facadas teria gritado “Allahu Akbar!” (“Deus é o maior”, em árabe) no momento do ataque. 

A motivação levou o Ministério Público a abrir um inquérito por assassinato por razão religiosa contra pessoa vulnerável, além de roubo e degradação. Um dos suspeitos, o vizinho, já foi condenado por estupro e era muito próximo da vítima, segundo a própria família. 

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“Aparentemente, minha mãe o conhecia muito bem e o considerava como um filho”, afirmou à agência France Presse Daniel Knoll, um dos filhos da aposentada. “Estamos em choque. Não compreendemos como se pode matar um mulher sem dinheiro.”

Desde o fim de semana, entidades da comunidade judaica da França – cerca de 400 mil pessoas – se mobilizaram para denunciar o crime e a violência religiosa em relação aos judeus na Europa. Outro fator que provocou comoção foi o histórico de vida de Mireille. Nascida em 28 de dezembro de 1932, em Paris, ela tinha um pai imigrante do Brasil, que lhe legou a nacionalidade – e um passaporte – brasileiros. 

Em 15 de julho de 1942, a nacionalidade brasileira salvou sua vida quando os nazistas começaram a deportar os 13 mil judeus franceses para Auschwitz. O episódio é um dos mais vergonhosos da colaboração de franceses com os alemães na 2.ª Guerra. 

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“Os soldados olharam os passaportes e finalmente os deixaram passar. Foi o que lhes salvou”, contou Daniel Knoll à TV israelense i24 News. Ainda de acordo com a família, Mireille e a mãe fugiram da França e encontraram refúgio temporário em Portugal, de onde partiram para o Canadá. Após a guerra, ela se casou com um francês sobrevivente de Auschwitz, com quem retornou para viver em Paris.

“Minha avó conseguiu escapar dos nazistas”, lembrou sua neta, Noa Goldfarb, de 34 anos, que hoje vive em Israel. “Mas os radicais islâmicos a mataram.”

Repúdio. O Congresso Judaico Latino-Americano manifestou seu  repúdio pelo assassinato de Mireille Knoll. "Pedimos às autoridade francesas que tomem as medidas necessárias para proteger seus cidadãos, que o extremismo e a intolerância não sigam se propagando, e esperamos que os responsáveis por esse crimes sejam julgados", diz o comunicado, assinado pelo presidente da organização, Adrián Werthein.

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