Kerry, Bibi e Bardo

As más notícias raramente vêm sozinhas, costumam dizer os árabes. O secretário de Estado americano, John Kerry, inaugurou a série domingo passado, pronunciando uma dessas pequenas frases que, em linguagem diplomática, podem estar carregadas de implicações. Entrevistado pela rede CBS, Kerry admitiu que, no fim, será preciso negociar com Bashar Assad para se chegar a uma solução política da crise da Síria, porque qualquer solução militar seria impossível.

Issa Goraieb, O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 02h04

Como é tradição nesses casos, o Departamento de Estado apressou-se em atenuar o impacto de sua afirmação, assegurando que a negociação estará limitada a representantes do regime de Damasco, que jamais haverá futuro para um ditador de tamanha brutalidade.

Simples lapso ou balão de ensaio? Seja como for, o mínimo que se pode afirmar é que, para o governo de Barack Obama, que há muito tempo pede a saída de Assad, a prioridade agora é a luta contra o Estado Islâmico.

Quanto ao desgaste que a bomba de Kerry já causou, serão consideráveis. De fato, não só os dois aliados europeus mais próximos dos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, procuraram distanciar-se do que pareceu uma total reviravolta da posição americana, como um vento de pânico soprou sobre os reinos petrolíferos do Golfo Pérsico, enquanto a oposição síria no exílio criticava energicamente a traição.

Como se todos estes danos não fossem ainda suficientes, Bashar Assad declarou que dava pouca importância às palavras e esperava atos concretos, dando-se inclusive ao luxo de abater um drone americano que sobrevoava o noroeste da Síria, reduto da comunidade alauita à qual pertence o presidente sírio.

Israel e Palestina. Mal a emoção refluía, Binyamin Netanyahu foi triunfalmente reeleito primeiro-ministro d Israel. É ele o homem que os árabes responsabilizam pela interrupção do processo de paz e pela colonização desenfreada dos territórios palestinos ocupados. A decepção do americano Barack Obama com os resultados das eleições legislativas israelenses não bastou evidentemente para acalmar as apreensões palestinas.

Mais promissor, por outro lado, a longo prazo, é o feito conseguido pelos árabes cidadãos de Israel. Graças à reunião numa mesma coalizão de liberais, comunistas e islâmicos, estes, que representam um quinto da população israelense, puderam afirmar-se como a terceira força na Knesset, o Parlamento do país.

Entretanto, estes pontos de vista um tanto pessimistas não constituem a unanimidade entre os analistas árabes. Os céticos reconhecem indubitavelmente a preocupante realidade da guinada à direita do eleitorado israelense, fenômeno que as sondagens não haviam previsto. No entanto, ressaltam que, para os palestinos, a volta de Bibi poderá também oferecer as vantagens representadas pela política do pior.

Assim, uma vitória da União Sionista causaria uma demora de meses de atraso, anos talvez, até que a dupla Herzog-Livni chegue a concluir uma estratégia de negociação: isto, sem qualquer garantia de congelamento da colonização judaica da Cisjordânia.

Sem falar que o irredentismo de Netanyahu favorece, por sua natureza, as iniciativas dos palestinos junto à ONU e à justiça internacional buscando incriminar Israel.

Por fim, e como se o exemplo da Síria não fosse suficientemente eloquente, o massacre de turistas europeus perpetrado na quarta-feira por terroristas islamistas treinados na Líbia, em frente ao Museu do Bardo, em Túnis, lembrou da maneira mais brutal quão mortal é o extremismo religioso para as aspirações dos povos árabes à liberdade, à dignidade, à democracia.

O fato de esse ato bárbaro ter tido como cenário a Tunísia é duplamente entristecedor. De fato, o país é o berço das primaveras árabes que, em seguida, brotaram nesta parte do mundo.

Retrocesso. Depois de um período de flutuação e de uma efêmera tomada do poder pelas formações ligadas à Irmandade Muçulmana, a Tunísia parecia ter encontrado o equilíbrio e a serenidade com a recente eleição de um presidente anti-islâmico e a formação de um governo de união nacional que concede uma modesta participação aos partidos religiosos.

Não apenas o atentado do Museu do Bardo ameaça ser catastrófico para a economia tunisiana, que depende amplamente dos recursos do turismo, como golpeia no coração uma experiência tunisiana pacífica que o mundo árabe-muçulmano via como um modelo de transição política. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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