Kenzaburo Fukuhara/ AP
Kenzaburo Fukuhara/ AP

Kim desafia liderança da China com detonação nuclear

Coreia do Norte busca pressionar Pequim às vésperas de congresso do PC chinês para conseguir melhor acordo com os EUA

Jane Perlez / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 05h00

Deveria ser um momento para Xi Jinping desfrutar seu prestígio mundial. Afinal, o presidente chinês recebia os líderes de Rússia, Brasil, Índia e África do Sul, membros do chamado grupo Brics – e a poucas semanas do congresso dos líderes do Partido Comunista da China. Entretanto, no domingo, apenas horas antes de Xi falar na cúpula cuidadosamente orquestrada, o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, ordenou o sexto teste nuclear do país. 

Kim programou o timing da detonação atômica com precisão milimétrica, aparentemente buscando criar o máximo de embaraço para a China.

A intenção de Pyongyang, segundo analistas, é mostrar que Kim, líder de um pequeno e provocador país vizinho da China, pode mexer com o poder e o prestígio de Xi como presidente chinês. De fato, alguns analistas entendem que o último teste nuclear teve como objetivo pressionar Xi, não o presidente Trump. 

“Kim sabe que Xi tem o poder real de afetar os planos de Washington”, disse Peter Hayes, presidente do Nautilus Institute, grupo de pesquisas especializado em Coreia do Norte. “Assim, ele está pressionando Xi a dizer a Trump: ‘Você tem de conversar com Kim’.” 

O que o líder norte-coreano mais deseja, segundo Hayes, são conversações com Washington que levem a um acordo de redução das forças americanas na Coreia do Sul e o deixem manter suas armas nucleares. E, pelos cálculos de Kim, a China tem influência para fazer essa negociação ocorrer.

Para alguns analistas chineses, Pyongyang deveria pagar por seu desdém pela China, aliada da Coreia do Norte e sua grande parceira comercial. Mas mesmo esses analistas não estão otimistas de que o teste de domingo mude a determinação de Xi de ficar acima da disputa e o leve a forçar Kim a mudar de atitude. 

“Esse teste nuclear deveria testar a disposição da China em tomar uma atitude mais radical”, avaliou Cheng Xiaohe, especialista em política nuclear da Universidade Renmin. “Mas a tendência não é essa.”

Segundo Cheng, apesar das repetidas provocações da Coreia do Norte, os líderes chineses provavelmente vão se ater à posição de que uma Coreia do Norte com armas nucleares seria menos perigosa para a China do que a possibilidade de um colapso político no Norte – o que poderia resultar numa unificação da Península Coreana sob controle dos Estados Unidos e sua aliada regional, a Coreia do Sul. 

A China teme que isso possa ocorrer caso ela venha a usar seu grande trunfo econômico em relação a Pyongyang: cortar o fornecimento de petróleo que mantém funcionando a rudimentar economia da Coreia do Norte. 

“Interromper o fluxo de petróleo poderia abalar severamente as indústrias norte-coreanas e minar a estabilidade do regime, uma solução que inquieta a China e a Rússia”, disse Zhao Tong, do Carnegie-Tsinghua Center para Política Global em Pequim. 

Uma proposta chinesa é que a Coreia do Norte interrompa seus testes nucleares em troca do fim das manobras militares americanas. 

Mas Xi está mais preocupado com as maquinações em torno do Congresso Nacional do Partido Comunista, em outubro, para a escolha de novos membros da elite do PC. No encontro, Xi deverá ser contemplado com um segundo mandato de cinco anos. É, portanto, improvável que o governo decida qualquer coisa antes de 19 de outubro. 

A maior preocupação das autoridades de Pequim é que a Coreia do Norte se volte contra a China. “Encurralada, a Coreia do Norte poderia agir militarmente contra a China, uma vez que a relação entre ambas atingiu uma baixa histórica”, avaliou Zhao. 

A China fornece mais de 80% do petróleo usado pela Coreia do Norte e a suspensão da entrega seria, talvez, a sanção mais drástica contra Pyongyang. Mas há também dúvidas de que o corte no petróleo vá fazer uma diferença muito grande para o regime norte-coreano.

“Os efeitos econômicos seriam substanciais, mas não mutilariam o regime”, disse Hayes, do Nautilus Institute.

Segundo ele, os que mais sofreriam seriam as pessoas comuns, com menos comida e menos ônibus ligando as cidades. 

As Forças Armadas norte-coreanas têm petróleo estocado para aguentar pelo menos um ano se não for uma situação de guerra, disse Hayes. “Em tempo de conflito, essa disponibilidade cairia um mês.”

Outra grande preocupação do governo chinês é o medo de residentes do nordeste da China de uma possível contaminação nuclear vinda do campo de testes norte-coreano de Punggye-ri, não distante da fronteira chinesa. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É JORNALISTA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.