EFE
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Kirchnerismo age para atrair multidão a ato

Campanha para dar apoio a discurso de Cristina no Congresso inclui coação, transporte e cartazes

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

01 Março 2015 | 02h04

A presidente Cristina Kirchner faz hoje seu oitavo e último discurso anual no Congresso. O ato está cercado de expectativa de rivais e dos governistas. O kirchnerismo quer uma multidão ao redor do Parlamento para responder à marcha que reuniu 400 mil manifestantes em homenagem ao promotor Alberto Nisman, no dia 18 - o chamado 18F. Para isso, recorre a algumas táticas ortodoxas, outras menos.

O mecânico Juan "Chino" Suárez, de 35 anos, é coagido a ir atos como o de hoje. Vota em Cristina porque em seu mandato, trabalhando em um dos programas sociais do governo, ganhou uma casa em José C. Paz, bairro operário a 50 quilômetros de Buenos Aires. "Se o ônibus passar para me pegar, vou. A gente pode dizer que não uma vez, mas na segunda vem o troco", disse na sexta-feira. Indagado sobre o que poderia ser a retaliação, salientou que não era física, mas a perda de algum benefício. "Não quero ficar marcado."

Chino trabalha no bairro de Belgrano, em frente a um comitê do grupo La Cámpora, a juventude kirchnerista comandada pelo filho de Cristina, Máximo. Na fachada dessa unidade, na Rua Echeverría 1.574, havia o seguinte cartaz: "Vamos juntos à praça. Te esperamos às 8 horas aqui. Domingo, 1/3".

O Chino, que costuma frequentar o comitê quando chegam as cestas básicas, vendidas a 60 pesos (R$ 20), relata que do local sempre sai a van que leva os militantes com os bumbos para atos políticos.

"Os participantes são levados por movimentos como o La Cámpora, o Evita, pelos sindicatos ou pelos prefeitos kirchneristas. Mas há muita gente que vai por conta", afirmou ao Estado o sociólogo Martín Rodríguez, que se afastou do kirchnerismo no último mandato de Cristina e escreveu um livro sobre o movimento.

Para motivar os ativistas espontâneos, La Cámpora colou milhares de cartazes em Buenos Aires chamando para o 1M, geralmente com a palavra lealdade em destaque. Os mesmos foram distribuídos virtualmente, por Twitter, Facebook e e-mail a quem está na lista de destinatários automáticos do kirchnerismo.

O analista político Fabián Perechodnik, da consultoria Poliarquía, ressalta a importância do momento do discurso de Cristina, três dias após ter se livrado da denúncia de acobertamento feita por Nisman, encontrado morto com um tiro na cabeça em seu apartamento no dia 18 de janeiro.

Desde a morte, Cristina teve uma queda moderada, de 4 pontos, em sua popularidade. Sua imagem em fevereiro foi considerada positiva, segundo a Poliarquía, por 35% e negativa por 39% dos consultados - para os demais, era regular.

Em janeiro, os índices positivo e negativo eram de 39%. "O caso teve menos impacto em sua popularidade do que o choque ferroviário que matou 51 em 2012 na estação Once e o conflito com ruralistas, em 2008", comparou o analista.

A oposição aposta que ela usará o discurso, que deve durar de 3 a 4 horas, para atacar o Judiciário - alguns juízes e promotores convocaram a marcha por Nisman. Segundo o sociólogo Ricardo Rouvier, especialista em opinião pública, Cristina seguirá fiel ao seu estilo.

"Ela deve esticar a corda, atacar corporações e mencionar tentativas de desestabilizar o governo expressadas na 'marcha do silêncio' (18F). Como é o último discurso no Congresso, deve resumir as conquistas dos 12 anos de kirchnerismo, apostando na militância para contrabalançar a marcha convocada pelos promotores", diz.

Para Perechodnik, não há como comparar os dois atos. "Embora tenha sido estimulado por meios de comunicação rivais ao governo, o 18F não teve ninguém transportado em ônibus. Foi mais espontâneo."

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