Gordon Welters for The New York Times
Gordon Welters for The New York Times

Lembrete para líder extremista

Artistas erguem réplica do Memorial do Holocausto diante da casa de político da extrema direita após ele defender que se esqueça papel alemão na 2ª Guerra

The New York Times

28 Dezembro 2017 | 05h00

BORNHAGEN, ALEMANHA - Ninguém no vilarejo estava prevendo o que ocorreria. Especialmente Björn Höcke, pai de quatro filhos, um homem tranquilo que por acaso se tornou o político de extrema direita mais conhecido da Alemanha. Em janeiro, num comício em Dresden, Höcke questionou o preceito que tem orientado a Alemanha moderna – a culpa do país na 2.ª Guerra e o Holocausto. Ele exortou os alemães a encarar a história do país de maneira totalmente oposta, fazendo um giro de 180 graus. 

Os alemães foram “o único povo no mundo a erguer um monumento da vergonha no centro da sua capital”, disse ele, referindo-se ao Memorial do Holocausto em Berlim. Então, numa manhã de quarta-feira, quando despertou, viu o Memorial do Holocausto na frente da janela do seu quarto: 24 blocos de concreto retangulares, uma parte do monumento original, reconstruído no tamanho proporcional à propriedade. A única diferença era que os blocos faziam um giro de 180 graus.

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“Queremos lembrar Höcke de que ele pode mudar a história da Alemanha como desejar, mas isso não muda nada”, declarou Philipp Ruch, cofundador de um grupo de arte com sede em Berlim conhecido como Center for Political Beauty. 

O memorial chamou a atenção do país para o pequeno povoado de Bornhagen, com 309 habitantes, na antiga fronteira que separava a Alemanha Ocidental da Oriental. Höcke, professor de história e chefe local do partido AfD (Alternativa para Alemanha), chama o vilarejo de local de inspiração. Por trás da fachada idílica, Bornhagen reflete a nova e confusa realidade da Alemanha, onde a tolerância política e a homogeneidade demográfica vieram abaixo. O AfD conquistou 34% dos votos em Bornhagen nas últimas eleições, mais de duas vezes a média nacional. Mas vizinhos são vizinhos. Integrantes do Partido Verde e os eleitores do AfD vão à caça juntos. Refugiados que chegaram recentemente ao povoado vivem tranquilamente. Até o surgimento do memorial, em 22 de novembro, tais contradições coexistiam pacificamente – pelo menos na aparência.

Ascensão

A instalação perturbou a vida local. E as observações de Höcke, que chocaram até membros de seu partido, lançaram uma pergunta que extrapola o próprio vilarejo: como os alemães deverão enfrentar a ascensão da extrema direita, agora que um partido abertamente nacionalista entrou no Parlamento pela primeira vez desde a 2.ª Guerra? 

Para Philipp Ruch e seus colegas artistas, a resposta é clara. Durante dez meses os artistas discretamente exploraram o vilarejo. Registraram uma empresa e obtiveram licença das autoridades locais, alugaram uma propriedade próxima da casa de Höcke e instalaram uma barraca no jardim para montar a réplica do memorial longe da vista dos moradores. Os vizinhos foram informados que se tratava de uma surpresa para uma festa de noivado. 

Ameaças

Nas últimas semanas, alunos visitam o memorial, os opositores da extrema direita furam os pneus de carros estacionados no local e os da extrema esquerda protestam contra o fascismo. Há ameaças de morte mútuas. 

“Da noite para o dia nos tornamos um vilarejo nazista”, afirma Silvia Rinke, guia turística que sempre votou na esquerda. Silvia conta que os visitantes têm perguntado menos sobre a rica história da região e mais sobre Höcke. Ela diz estar chocada com os comentários de Höcke, mas também com os métodos dos artistas. Como, por exemplo, revolver o caminho por onde ele passa para conseguir uma amostra de DNA e determinar a própria pureza racial dele (foi descoberto que ele tem sangue polonês e português).

“Sou contra o AfD, mas mesmo assim me sinto uma partidária de Höcke”, disse Silvia. “Não somos o Estado, não somos a Stasi”, disse ela, referindo-se à polícia secreta da antiga Alemanha Oriental. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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