Libertação de jihadistas presos alarma países da União Europeia

Nos próximos dois anos, mais de 200 condenados por terrorismo sairão de prisões da Europa; ao todo, cerca de 12 mil europeus deixaram suas casas para lutar pelo Estado Islâmico e a Al-Qaeda desde 2011

O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 05h00

Pelos próximos dois anos, condenados por terrorismo sairão de prisões europeias às dezenas. São mais de 200 detentos da primeira leva de jihadistas na Síria e Iraque, que sonhavam com um califado nunca estabelecido. Ao todo, cerca de 12 mil europeus deixaram suas casas para lutar pelo Estado Islâmico e a Al-Qaeda desde 2011. Acredita-se que, agora, cerca de um terço destes estejam em casa, a maioria vivendo livremente. Alguns aguardam julgamento, mas a maior parte nunca sequer enfrentou acusações sérias pela falta de provas suficientes.

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Qual o tamanho da ameaça constituída por esses extremistas declarados que moram na Europa? As autoridades estão preparadas para lidar com eles? As táticas até agora têm sido, no máximo, improvisadas. A libertação iminente desses veteranos jihadistas pode ser considerada a quarta onda de europeus que foram e voltaram, segundo afirma Rik Coolsaet, especialista em extremismo violento pelo Instituto Egmont, na Bélgica.

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“Há um número de frustrações e motivações pessoais que têm empurrado jovens para a jornada ao Estado Islâmico com as quais agora estamos lidando”, disse. “Se não tratarmos disso agora, o ambiente vai continuar contribuindo para esse tipo de violência jihadista”. Farid Benyettou, ex-combatente que publicamente renunciou ao extremismo, teme que a Europa não esteja pronta para lidar com as hordas de militantes prestes a ocupar as ruas.

Outrora apelidado de “imã Voltaire”, ele abandonou o ensino médio e se tornou um pregador para jovens muçulmanos de sua vizinhança em Paris. Benyettou escreveu um livro detalhando seu declínio ao extremismo islâmico. Ele vê a libertação dos detentos com apreensão, com base em sua própria experiência. Aos 38 anos de idade, ele passou 4 anos preso sob a condenação de terrorismo, durante os quais alternava entre o recrutamento de detentos jovens à causa e o estudo dedicado para seu diploma de enfermeiro.

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Benyettou demorou anos para negar a ideologia que certa vez disseminou tão efetivamente. Agora, ele diz que o extremismo semeia apenas a morte. No grupo que liderava estavam Cherif e Said Kouachi, que mataram 12 pessoas no jornal satírico Charlie Hebdo, em 2015. Outro de seus seguidores se explodiu no Iraque; outro morreu na Síria enquanto lutava pelo Estado Islâmico. A célula que ele liderou é uma epítome da questão urgente que Europa agora enfrenta: Será que os condenados por terrorismo prestes a serem libertados são como Benyettou, como os Kouachi ou um meio-termo entre as duas possibilidades?

"Esses caras que estão condenados hoje ou que ainda serão condenados um dia vão sair da prisão", disse Benyettou. "E essa é a questão: que tipo de preparação existe para sua libertação?" Sentenças de prisão por terrorismo na Europa, até muito recentemente, ficavam em torno de seis anos, em comparação aos 13 anos nos Estados Unidos, segundo dados do Europool.

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Desde o ataque ao Charlie Hebdo, as sentenças aumentaram no continente, mas ainda ficam abaixo dos níveis dos EUA. "O perigo é o risco de reincidência. Não podemos ser muito rápidos ao acreditar em alguns terroristas quando dizem que estão arrependidos", disse a procuradora-geral de Paris Catherine Champrenault, em recente entrevista ao Le Monde.

A França, que foi repetidamente atacada pelos combatentes e simpatizantes do Estado Islâmico, vai libertar 57 detentos - cerca de metade da sua população atual de condenados por terrorismo. Na Grã-Bretanha, onde quase metade das sentenças por terrorismo são de quatro anos ou menos, 25 detentos aguardam a soltura - três quartos dos condenados sob uma das principais leis do país, de 2017.

Na Bélgica, 80 combatentes estrangeiros já estão livres e outros 44 vão se juntar a eles. Na Espanha, 21 de 34 extremistas que voltaram ao país estão livres desde o ano passado. E na Bósnia e no Kosovo, todos os combatentes estrangeiros serão libertados. Somente nesses países, o total supera 200.

E o número atual é, sem dúvida, maior, porque nem todos os países disponibilizam seus dados, em especial a Alemanha, que teve cerca de mil residentes viajando pelo jihadismo. Mas o país não publicou nenhum número sobre condenações ou libertações dessas pessoas. O ataque mais recente ligado a combatentes que voltaram ao país de origem foi em março de 2016, quando uma célula do Estado Islâmico detonou bombas suicidas no aeroporto e metrô de Bruxelas.

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A rede composta por veteranos do Estado Islâmico na Síria - e por seus amigos e parentes recrutados para a causa - já atacou um trem que ia de Paris a Bruxelas em agosto de 2015 e também bares, restaurantes, uma arena de shows e um estádio em Paris, no ano de 2015. Ao todo, a célula matou 162 pessoas. Ainda assim, a grande maioria dos jihadistas que voltaram para casa não foi presa e não causou nenhum dano.

Muitos dos jihadistas locais são homens jovens vindos de famílias pobres, com educação limitada e que se sentem excluídos da sociedade que os cerca. Muitos deles não tiveram um pai. Julgamento após julgamento, são poucos os que dizem ter abandonado o jihadismo. Ao contrário, dizem que a causa os abandonou. A maioria revelou ter viajado centenas de quilômetros apenas para se encontrarem em meio a forças de extermínio mútuo por controle territorial, e não uma batalha contra as forças sírias de Bashar Assad ou trabalho para ajudar os civis sírios.

Quando saem da prisão, não há programas ou políticas para eles. A França aplicou uma série de proibições pós-soltura, que vão desde checagens periódicas com autoridades, como é o caso de Benyettou, até a detenção domiciliar perpétua para ex-prisioneiros como Kamel Daoudi, condenado pelo bombardeio na embaixada americana em 2005.

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A prisão domiciliar se tornou rara desde o fim do estado de emergência da França no ano passado, com apenas 36 pessoas presas em suas casas, em comparação com as 754 na mesma situação imediatamente depois dos ataques de novembro de 2015. Na Bósnia, onde todos os 23 condenados por terrorismo já cumpriram suas sentenças ou as cumprirão em breve, o ministério da Justiça disse avisou funcionários de assistência social, agências de empregos e alojamentos, mas que não pode fazer mais do que isso.

A Grã-Bretanha promove apenas aconselhamento e monitoramento limitados, e oferece um programa para ajudar ex-detentos a se reintegrarem. A Espanha teoricamente começou um programa de "reeducação e reinserção" em 2016, no qual detentos terroristas são avaliados pelo risco que apresentam e são submetidos ao aconselhamento apropriado. Mas de acordo com o governo, apenas 10 dos 146 presos por laços com grupos extremistas islâmicos realmente passaram pelo programa de desradicalização. O ministro do Interior se recusou a explicar o motivo da situação.

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Expulsar os extremistas não é um remédio realista: a grande maioria dos combatentes e simpatizantes jihadistas do continente são europeus puros, o que significa que não podem legalmente perder sua cidadania ou serem deportados. Ainda assim, a Dinamarca agiu para retirar a cidadania de um homem nascido e criado no país e o enviou para a Turquia quando cumpriu sua sentença de seis anos de prisão. Hamza Cakan, um dono de pizzaria que se juntou ao Estado Islâmico e possui cidadania dupla, voltou para casa e foi preso quando tentou viajar para a Síria novamente, em 2015.

A expulsão é uma opção ao menos para os que nasceram em outros lugares. Um exemplo é o caso de Djamel Beghal, um franco-argelino que foi mentor dos Kouachi. A frança retirou sua cidadania francesa e pretende enviá-lo diretamente para a Argélia, onde nasceu, quando for libertado em agosto, apesar das repetidas críticas da Corte Europeia de Direitos Humanos. Os que são considerados legalmente como perigosos provavelmente permanecerão atrás das grades por anos. Salah Abdeslam e Mohamed Abrini, ambos ligados à rede do Estado Islâmico que atacou Paris e Bruxelas, sequer foram a julgamento pelas acusações.

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E Tewffik Bouallag, um combatente do Estado Islâmico da França que foi detido depois de pegar um voo de Istambul a Berlim, foi sentenciado a 14 anos de prisão no mês passado. Quanto a Benyettou, ele decidiu se tornar enfermeiro depois de sair da prisão em 2009. Três anos depois, enquanto estava completando seu curso, o extremista Mohammed Merah matou sete pessoas, atacando soldados franceses e uma escola de judeus.

Algo estalou em Benyettou à época, mas a mudança só veio com o ataque ao Charlie Hebdo. "As pessoas que cometeram aqueles crimes, aquelas eram pessoas que estavam diretamente ligadas a mim", disse. "Eu tinha certa responsabilidade. Era dentro desses grupos que as pessoas estavam defendendo a morte, e eu tinha defendido a morte."

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O sonho de Benyettou de se tornar enfermeiro evaporou naquele dia. Ninguém o contrataria sabendo que ele tinha laços com os irmãos Kouachi. Agora, ele faz treinamento para se tornar motorista de caminhão. E fala com profundidade sobre a mudança dramática em seu caminho. "Todo mundo tem contratempos na vida, planos que não se realizam. Para mim, é o meu passado", disse.

Ter um plano - qualquer plano - foi crucial para que Benyettou deixasse o extremismo para trás. E é por isso o que muitos temem que não só a França, mas toda a Europa vai falhar com a próxima onda de condenados por terrorismo. "Mandá-los de volta para as exatas mesmas circunstâncias que fizeram com que escolhessem o extremismo violento - bem, infelizmente você vai ter o mesmo resultado", disse uma empresa que fornece consultoria para governos e corporações, o Grupo Soufan.

No recente julgamento de Erwan Guillard, o juíz disse a mesma coisa. Guillard é um francês que se converteu ao Islã, abandonou o exército e apareceu com ferimentos de batalha numa propaganda do Estado Islâmico. Ele saiu da Síria voluntariamente, se rendeu à polícia e forneceu à inteligência francesa informações sobre o grupo extremista e seus combatentes no estrangeiro, segundo testemunhas do julgamento. Guillard diz que saiu do Estado Islâmico porque ficou desapontado com o que encontrou na Síria, mas não demonstrou ter abandonado a ideologia que inspirou sua jornada.

“Um dia você vai sair da prisão. O que você vai fazer?” perguntou o juiz. Guillard ficou confuso por um momento, murmurando algo sobre aprender a dirigir grandes equipamentos. Então olhou diretamente ao juiz. “Eu não vejo nenhum futuro na França. Nós não dividimos os mesmos valores”, respondeu.

 

 

 

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