Jim Lo Scalzo/EFE
Jim Lo Scalzo/EFE

‘Lição para América Latina é que retórica de presidente tem de ser levada a sério’

Movimento rumo ao protecionismo e restrição da imigração afetam todo o mundo, incluindo Brasil, Argentina e Chile

Entrevista com

Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2017 | 05h00

WASHINGTON - O tratamento do México pelo governo Donald Trump é um teste de como os EUA se comportarão com seus aliados, afirma Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano. Segundo ele, a orientação nacionalista do novo governo terá impacto em toda a região, que sofrerá com o aumento do protecionismo e restrições à imigração. “A lição para a América Latina é que a retórica de Trump tem de ser levada a sério”, disse Shifter em entrevista ao Estado. Em sua avaliação, as medidas do novo ocupante da Casa Branca devem reforçar o antiamericanismo na região e fortalecer políticos latino-americanos que tenham um discurso crítico aos EUA. A seguir, trechos da entrevista.

Como a retórica e as medidas de Trump já afetaram a relação EUA-México?

Provocaram um dano enorme. Havia a expectativa de que ele seria mais moderado na Casa Branca e entenderia a importância vital do México para os EUA, mas isso não ocorreu.

Qual é a importância do México para os EUA?

Essa é a mais importante relação que os EUA têm. Todas as questões estão presentes na agenda bilateral, que envolve quase todas as agências do governo americano. A relação se aprofundou ainda mais em razão do Nafta. O México é o terceiro maior parceiro comercial dos EUA. A equipe de Trump parece não entender isso.

E como a posição de Trump afeta os EUA?

Ela provoca um dano enorme para os EUA e a reputação do país no mundo. O tratamento do México, que é um importante aliado, é um teste sobre como os EUA tratam seus amigos. E muitas pessoas estão observando isso com grande alarme. Além disso, se Trump implementar suas propostas de tributos e tarifas de importação, isso prejudicará a economia americana. Há 6 milhões de empregos nos EUA que dependem do Nafta. Veremos aumento de preços, o que também terá impactos econômicos negativos. Os efeitos não serão tão severos quanto no México, mas prejudicarão a economia dos EUA e sua posição no mundo.

Por que o sr. diz que é a mais importante relação dos EUA?

Há muita coisa em jogo. Não é só a tremenda interconexão entre as economias, mas os fluxos migratórios. Não há só mexicanos vivendo nos EUA. O México é o principal destino turístico dos americanos (20 milhões de visitantes em 2013) e há um número crescente de americanos que vivem no México (1 milhão, segundo o Departamento de Estado). Se há uma crise no México, isso afeta os EUA. A ideia de que o México se beneficiou muito mais que os EUA dos acordos é uma ficção que está na cabeça do presidente e de assessores.

O tratamento do México é um caso isolado ou reflete uma mudança mais ampla na política externa dos EUA?

Os países da América Latina devem entender que essa é uma filosofia nacionalista, da ‘América em primeiro lugar’. O México foi a obsessão na campanha, mas cedo ou tarde Trump vai rever acordos comerciais com outros países na América do Sul. As restrições à imigração não atingem só o México. A lição para a América Latina é que a retórica de Trump tem de ser levada a sério. Ele está se movendo na direção do protecionismo e da restrição da imigração, o que afeta todo o mundo. Afeta o Brasil, a Argentina, o Chile.

Como companhias americanas poderão exigir mercados abertos e segurança jurídica em outros países se Trump negar isso a empresas estrangeiras nos EUA?

Essa política é contrária aos interesses dos EUA e as companhias americanas sentirão isso. Outros países também se fecharão e adotarão medidas protecionistas.

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