EFE/EDUARDO CAVERO
EFE/EDUARDO CAVERO

Líder peruano liberta Fujimori após se livrar de destituição e agrava crise

Decisão de Kuczynski provoca protestos de parentes das vítimas dos esquadrões da morte do Exército e renúncia de deputado governista

O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2017 | 19h01

LIMA - A decisão do presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, de conceder indulto humanitário a Alberto Fujimori – três dias depois de escapar da destituição graças ao apoio de um dos filhos do ex-presidente – provocou protestos nesta segunda-feira de parentes de vítimas dos abusos ocorridos na gestão do ex-líder, condenado a 25 anos de prisão por abuso de poder e crimes contra a humanidade, e deve agravar a crise política peruana. 

Em Lima, houve confrontos entre a polícia e mais de 200 jovens que tentaram realizar uma marcha de protesto até o Palácio do Governo. Os manifestantes carregavam fotos de algumas das vítimas da repressão do regime de Fujimori. Estima-se que o perdão provocará mudanças no gabinete ministerial de Kuczynski, cujo partido Peruanos Por El Kambio, minoria no Parlamento, está ainda mais enfraquecido pela deserção de um de seus legisladores.

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Kenji Fujimori, congressista e filho mais novo de Fujimori, que defendeu publicamente o indulto de seu pai, foi o primeiro da família a agradecer o perdão presidencial. “Gostaria de agradecer em nome da família Fujimori ao presidente Pedro Pablo Kuczynski pelo nobre e magnânimo gesto de conceder ao meu pai, Alberto Fujimori, um indulto humanitário”, escreveu Kenji em sua conta no Twitter.

Na votação de quinta-feira sobre a destituição de PPK, como é conhecido o presidente, a abstenção de Kenji e outros nove deputados do partido fujimorista Fuerza Popular evitou que o presidente deixasse o cargo. O filho de Fujimori foi contrário à orientação da legenda, comandada por sua irmã, Keiko, que queria tirar Kuczynski do poder. Deputados do partido, favoráveis e contrários à decisão de Kenji, atribuíram as abstenções a um acordo pela libertação do ex-presidente. 

PPK é acusado de ter ocultado uma consultoria que prestou à Odebrecht quando ainda era ministro da Economia do presidente Alejandro Toledo, entre 2004 e 2006. 

Nesta segunda-feira, Keiko também agradeceu. “Hoje é um grande dia para a minha família e para o fujimorismo. Finalmente, meu pai está livre. Esse será um Natal de esperança e felicidade!!!”, escreveu a líder do partido Força Popular, nas redes sociais.

Kuczynski, no entanto, atribui o indulto exclusivamente a razões humanitárias. “O presidente da república, no uso das atribuições conferidas a ele pela Constituição Política do Peru para tais fins, decidiu conceder um indulto humanitário ao sr. Alberto Fujimori e a outras sete pessoas que se encontram em condições semelhantes”, afirmou a presidência em um comunicado.

Fujimori foi examinado no dia 17 por uma junta médica que o avaliou na sede da Direção de Operações Especiais da polícia, onde estava preso desde 2007.

A junta determinou que Fujimori sofre de uma doença progressiva, degenerativa e incurável e as condições carcerárias significam um sério risco para sua vida, saúde e integridade.

Além do indulto, Kuczynski concedeu a Fujimori a graça presidencial “para todos os processos penais até a data que se encontram vigentes”. Com isso, Fujimori se salva de ser processado e julgado pelo caso Pativilca, no qual o ex-governante é acusado de ser responsável pelo massacre de seis pessoas em 1992 a cargo do grupo militar Colina.

Críticas. O indulto provocou o protesto das famílias de 25 vítimas assassinadas por esquadrões da morte do Exército durante o regime de Fujimori. Esse caso foi o que acabou levando Fujimori à prisão, após ser condenado como responsável pelos homicídios.

“Se você, sr. presidente, perdoar Fujimori sem o devido processo e sem uma junta médica imparcial, está viciando este processo e atropelando o direito das famílias à justiça”, escreveu Gisella Ortiz no Twitter.

“Outro indulto para uma pessoa condenada por crimes contra a humanidade. Não aprendemos mais na América. Triste noite”, disseEdison Lanza, relator para a liberdade de expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Em frente à clínica Centenario Peruano Japonesa, para onde Fujimori foi transferido da prisão, dezenas de partidários espontâneos se reuniram para comemorar a liberdade do ex-presidente, que ainda tem muitos partidários no Peru por estabilizar a economia do país e derrotar guerrilhas de esquerda, entre elas o grupo Sendero Luminoso. / AFP, REUTERS e AP

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