Lobby interno freia ação americana

Obama assume responsabilidade dos EUA sobre tráfico de armas e de drogas, mas política doméstica ainda impede ajuda efetiva

Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2010 | 00h00

 WASHINGTON - Nos últimos meses, várias notícias sobre americanos mortos na fronteira entre o México e os Estados Unidos por traficantes de pessoas e de drogas ganharam as páginas dos jornais. Com a violência do México ultrapassando cada vez mais a fronteira, os Estados Unidos resolveram assumir sua parcela de responsabilidade na guerra contra as drogas. Em março, o governo americano promoveu uma viagem de alto escalão ao México para discutir relações bilaterais, com foco especial em segurança. E a secretária americana de Estado, Hillary Clinton, fez questão de enfatizar: "Os EUA reconhecem que o tráfico de drogas não é um problema só do México, é também dos EUA". Ela falou novamente sobre a corresponsabilidade americana, já que tanto a demanda pelas drogas quanto as armas usadas pelos narcotraficantes vêm dos EUA, funcionando como combustível para a guerra travada atualmente em solo mexicano, que já matou 3.800 pessoas só neste ano.

"Não se trata apenas de retórica", diz a pesquisadora do centro de estudos Council on Foreign Relations Shannon O"Neil. "Mudou mesmo a abordagem e os Estados Unidos estão enfatizando a corresponsabilidade."

Antes, os americanos não assumiam essa responsabilidade e tratavam o problema das drogas no México como uma coisa para os mexicanos cuidarem. "Os governos do México e dos Estados Unidos vêm trabalhando bem juntos nos últimos quatro anos, melhorou bastante", diz Shannon.

Em parte, esse cenário começou a mudar com a chamada Iniciativa Mérida, assinada em junho de 2008 pelo então presidente George W. Bush e pelo líder mexicano Felipe Calderón. A iniciativa prevê o investimento de US$ 1,4 bilhão para combater o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro, principalmente no México, com recursos para equipamento militar e treinamento de pessoal, além de cooperação entre as polícias dos dois países. O presidente americano, Barack Obama, reforçou seu compromisso com os mexicanos, ao assumir a Casa Branca no ano passado.

Omissão. Mesmo assim, ainda há muito a ser feito. Quando Obama visitou o México logo após sua posse, em 2009, ele prometeu aprovar a Convenção Interamericana contra a manufatura e tráfico de armas de fogo, conhecida pela sigla Cifta. Os Estados Unidos são um dos quatro países-membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) que não ratificaram o tratado, de 1998.

O Cifta é um passo essencial para conter o fluxo de armas dos Estados Unidos para o território mexicano. No México, não se pode comprar arma em nenhum lugar. Mas nos Estados Unidos, em qualquer supermercado Wal Mart perto da fronteira, é possível adquirir armamento. Mas, apesar da promessa de Obama, até hoje o Cifta não foi aprovado pelo Senado, vítima de pressões do lobby pró-armas nos Estados Unidos, principalmente da National Rifle Association. No Congresso, até defensores do tratado, como o senador John Kerry, admitem que o Cifta está no fim da fila de projetos a ser considerados.

A Iniciativa Mérida passou dois anos a passo de tartaruga. Até hoje, só liberaram US$ 300 milhões dos US$ 1,4 bilhão autorizados pelo Congresso. Finalmente, os EUA prometeram entregar os três helicópteros Black Hawk, em outubro. Havia grande insatisfação entre oficiais mexicanos com a ineficiência do programa. E agora começa uma segunda fase, defendida por Obama, com plano de fortalecer instituições em vez de privilegiar apenas a compra de equipamentos militares.

O lado da demanda por drogas também precisa de muito trabalho. "O nível de engajamento entre EUA e México melhorou muito, há muito mais cooperação", disse David Shirk, diretor do instituto de fronteira da Universidade de San Diego. "Mas precisamos nos concentrar no ponto de vendas, ou seja, no consumo das drogas nos EUA e, no caso de imigração ilegal, nos empregadores de ilegais aqui no país. Temos fracassado na tentativa de reduzir o consumo de drogas aqui", afirma Shirk. "Se não cortarmos o consumo e pusermos mais recursos no combate às drogas aqui nos EUA, não adianta ter guerra contra os narcotraficantes no México."

Imigração. O problema dos imigrantes ilegais - há 11 milhões nos EUA, a maioria mexicanos - voltou ao foco com a lei aprovada pelo Estado do Arizona. A lei exige que policiais estaduais questionem e prendam suspeitos de ser imigrantes ilegais. A legislação, proposta pelo Senado estadual, entra em vigor em julho, caso não seja derrubada nos tribunais. Para os críticos, a lei vai levar a um "perfil racial", ou seja, qualquer pessoa com cara de hispânico que for pega sem documentos pode acabar presa. Algumas entidades já declararam boicote contra o Arizona.

Os republicanos, de modo geral, querem apenas medidas que endureçam a aplicação das leis de imigração, com mais policiamento nas fronteiras e mais deportações. Eles acham que a imigração ilegal está aumentando a criminalidade.

Já os defensores da reforma da imigração dizem que é preciso ter algum caminho para a legalização dos 11 milhões que já estão em território americano. Eles dizem que verificar no local de trabalho a legalidade dos funcionários é mais eficiente do que na fronteira, e não adianta só deportar gente.

O grande medo é que, sem uma reforma da imigração, leis estaduais como a do Arizona multipliquem-se - Estados como Texas, Georgia e Oklahoma já anunciaram medidas semelhantes. A reforma da imigração tem poucas chances de ser votada ainda este ano no Congresso, já que as eleições legislativas de novembro deixam senadores e deputados sob enorme pressão.

Muro. Para completar, alguns senadores estão tentando ressuscitar o muro na fronteira - faz parte de uma proposta do senador Jim De Mint completar os mil quilômetros que faltam para terminar a cerca. Se o muro voltar a ser construído, e os EUA endurecerem leis de imigração, sem uma reforma que preveja legalização de alguns dos milhões de mexicanos ilegalmente no país, isso vai azedar a relação com o México.

Segundo analistas, há ainda uma grande nuvem de incerteza pairando, porque o opositor Partido Revolucionário Institucional (PRI) está na frente nas pesquisas e pode vencer a próxima eleição presidencial. "Estamos diante de uma potencial regressão na política", diz Denise Dresser, professora de ciência política do Instituto Tecnológico Autônomo de México,

Antes, durante o domínio do PRI (1929-2000), havia uma conivência entre membros do governo e as gangues. Quando Calderón iniciou sua guerra contra o narcotráfico, em 2006, a violência explodiu.

"As pessoas aprovam o fato de o presidente Calderón travar a guerra contra os grupos de narcotraficantes, mas ninguém acha que ele esteja ganhando", disse Dresser.

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