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AFP PHOTO / PRESIDENCIA ARGENTINA

Macri muda apuração da morte do promotor Alberto Nisman

Um ano depois, Executivo argentino tem agido para determinar se promotor se matou ou se foi morto

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Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires,
O Estado de S. Paulo

18 Janeiro 2016 | 05h00

BUENOS AIRES - Desde a posse de Mauricio Macri, o Executivo argentino tem agido direta ou indiretamente na investigação para descobrir se o promotor Alberto Nisman foi assassinado ou se matou há um ano. No domingo, o presidente rompeu o distanciamento que o kirchnerismo estabeleceu com a família do promotor e recebeu em sua casa as duas filhas de Nisman.

A Casa Rosada difundiu a foto da visita na conta de Twitter de Macri. Foi divulgado também um vídeo em que Iara e Kala, 16 e 8 anos, estão na sala do presidente e ouvem as palavras de um rabino.

Nisman apareceu com um tiro na cabeça no banheiro de seu apartamento de Buenos Aires em 18 de janeiro de 2015. O corpo foi encontrado quatro dias depois de ele acusar a presidente Cristina Kirchner e a cúpula do governo anterior de proteger altos funcionários iranianos condenados pela Justiça local pelo atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em 1994. O ataque deixou 85 mortos.

Nisman dizia ter gravações que mostravam que um pacto assinado em 2013 pelo kirchnerismo e o Irã, segundo o qual os acusados seriam ouvidos em Teerã, era na verdade uma retribuição por trocas comerciais envolvendo petróleo e grãos. 

A primeira medida de Macri sobre o assunto foi sepultar esse pacto, cuja constitucionalidade Cristina tentava manter para enfraquecer a tese de Nisman. O governo atual abriu mão de insistir na Justiça na legalidade do acordo.

Ontem, a última entrevista dada por Nisman foi reproduzida várias vezes pelo canal TN, do Grupo Clarín. "A aproximação com o Irã começou dois anos após a morte de Néstor Kirchner (em 2010). Tenho gravações de janeiro de 2012 que já falavam em um pacto de impunidade", afirmava o promotor, para justificar a denúncia contra a ex-presidente.

Após a morte de Nisman, o governo de Cristina não só desqualificou seu trabalho como expôs fotos pessoais com mulheres em viagens ao exterior. Também ressaltou a declaração de Diego Lagomarsino, técnico em informática que disse ter emprestado a Nisman a arma de onde saiu o disparo, de que o promotor ficava com metade de seu salário. 

A denúncia contra Cristina foi arquivada em maio e dificilmente seria reaberta sem as gravações às quais Nisman se referia. Outro ato de Macri que pode influenciar na aparição de novas evidências foi anunciado na semana passada. Agentes de espionagem que tenham algum detalhe sobre a morte estão autorizados a falar sem incorrer em crime por quebra de sigilo. 

Um dos espiões que ajudou Nisman na investigação do atentado, Jaime Stiuso, deu sinais de que voltará à Argentina para depor. Por meio de seu advogado, ele disse que havia fugido para os EUA porque não se sentia seguro após ter enfrentado o governo de Cristina.

Desde que a coalizão de centro-direita Cambiemos assumiu, houve também alteração no comando da investigação. A promotora Viviana Fein, acusada pelo bloco político de Macri de se inclinar pela hipótese de um suicídio, perdeu o posto. Em seu lugar, assumiu a juíza Fabiana Palmaghini . Ela determinou a coleta de novos depoimentos. Há contradições entre os guarda-costas de Nisman e dúvidas sobre o papel de funcionários kirchneristas que chegaram primeiro ao apartamento.

Às 18h30 desta segunda-feira, haverá uma manifestação para marcar o aniversário da morte de Nisman.

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