REUTERS/Gonzalo Fuentes
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Macron sela coalizão de centro na corrida presidencial na França

Um dos favoritos ao Palácio do Eliseu, ex-ministro da economia recebeu apoio de François Bayrou, líder do partido centrista Movimento Democrático (MoDem)

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

22 Fevereiro 2017 | 17h50

PARIS - O líder do maior partido centrista da França, François Bayrou, do Movimento Democrático (MoDem), anunciou nesta quarta-feira, 22, em Paris, seu apoio ao ex-ministro da economia Emmanuel Macron, 39 anos, na corrida eleitoral ao Palácio do Eliseu. A decisão foi recebida por analistas como um ponto de não-retorno na campanha para o pleito de abril e maio, porque a aliança representa a união do centro em uma só força política. A coalizão é desde já uma das favoritas, segundo pesquisas eleitorais, diante da fragmentação da esquerda e da direita.  

Bayrou é mais um dos pesos-pesados da vida política da França a retirar sua candidatura, depois do atual presidente, o socialista François Hollande, do ex-presidente republicano Nicolas Sarkozy e do ex-primeiro-ministro Alain Juppé, também republicano. Fundador do MoDem, até aqui a maior legenda centrista do país, Bayrou foi candidato nas últimas quatro eleições presidenciais, obtendo 18% dos votos em sua melhor performance, em 2007. Mas, bem além de seu escore eleitoral, o prefeito da cidade de Pau, na região dos Pirineus, tem a influência política. Nas duas últimas eleições, seu apoio foi considerado decisivo para a eleição de Sarkozy, há 10 anos, e de Hollande, há cinco.

Sua decisão de apoiar o líder social-liberal Emmanuel Macron, do movimento En Marche! (Em Movimento!), muda o cenário eleitoral. Até aqui, o ex-ministro da Economia aparecia em segundo lugar, atrás da candidata de extrema direita Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), e em empate técnico com o líder do partido Republicanos (direita), François Fillon. Segundo o instituto IFOP, Le Pen soma 26% das intenções de voto e Macron e Fillon somam 19%, à frente de Benoit Hamon, do Partido Socialista (PS), com 14%. 

Mas nesse cenário, Bayrou aparecia com 5,5% dos votos, mesmo não tendo anunciado sua candidatura. A questão agora diz respeito à transferência de seu eleitorado, que poderia definir a disputa pelo segundo lugar.

Aliança programática. A proposta de aliança partiu de Bayrou, que em uma concorrida entrevista coletiva anunciou sua disposição de apoiar Macron, desde que respeitadas quatro condições. Entre elas, o líder do MoDem pediu uma lei de moralização da vida política que acabe com princípios como o nepotismo, até hoje legal. Outra condição foi a reforma do sistema eleitoral, com a introdução de uma parte de proporcionalidade no modo de escrutínio, hoje com base no voto distrital. Na prática essa reforma deve abrir as portas do Parlamento a partidos menores, rompendo com o bipartidarismo que garantiu a alternância entre socialistas e republicanos no poder nos últimos 26 anos.

De acordo com Bayrou, a França corre o risco concreto de ver uma vitória da populista Marine Le Pen em maio, e logo a destruição da União Europeia. Diante dessa hipótese, a união, diz ele, tornou-se mais importante que projetos pessoais de chegada ao Palácio do Eliseu. "Nós estamos em uma situação de extremo risco, e, nessa situação excepcional, precisamos de uma resposta excepcional à altura do perigo", argumentou. "Porque o risco é imenso, porque os franceses estão desorientados e desesperados, decidi oferecer a Emmanuel Macron uma oferta de aliança."

O anúncio resultou em festa no comitê de campanha de Macron, que respondeu em poucos minutos, em uma conversa telefônica. "Eu aceitei a proposta de François Bayrou porque ele fez uma escolha extremamente forte, responsável e inédita", afirmou o ex-ministro, lembrando que a aliança é programática e em torno dos valores de En Marche!.

Sem surpresa, a oposição lembrou que Bayrou era crítico de seu novo aliado, e reagiu com desdém à coalizão. À esquerda, Aurélie Filippetti, porta-voz da campanha de Hamon, afirmou que a coalizão deixa claro que Macron é um candidato de centro-direita, sem relações com a esquerda. À direta, Florian Philippot, porta-voz de Marine Le Pen, foi no sentido contrário: "Bayrou apoiou Hollande em 2012, e agora apoia o herdeiro dele em 2017".

Para o cientista político Roland Cayrol, diretor do Centro de Estudos e de Análises (CETAN), a aliança do social-liberal com o centrista é um evento que marca desde já a campanha deste ano. "François Bayrou se sacrificou em nome da unidade", entende. "Isso dá mais oxigênio para a candidatura de Emmanuel Macron."

 

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