EFE/MIGUEL GUTIERREZ
EFE/MIGUEL GUTIERREZ

Madrugada de saques e protestos deixa 12 mortos em Caracas

Moradores de favela em reduto chavista saem às ruas para protestar contra o governo e saqueiam 17 estabelecimentos

O Estado de S.Paulo

21 Abril 2017 | 15h52

CARACAS - Os subúrbios de Caracas viveram uma madrugada violenta desta sexta-feira, 21, com saques e repressão da Guarda Nacional Bolivariana, que deixaram um saldo de ao menos 12 mortes. Duas das vítimas foram alvo de armas de fogo e oito morreram eletrocutadas ao pilhar uma padaria na favela de El Valle.  Eles foram eletrocutados por um cabo de energia que se soltou durante a invasão.  Outras duas pessoas morreram em decorrência da repressão aos protestos contra o governo.

 Desde o início dos protestos, há três semanas, outras 9 pessoas morreram vítimas de confrontos entre a polícia e manifestantes. Assim, no total, 11 pessoas morreram em virtude dos protestos e outras 10 em decorrências dos saques. Segundo a ONG de direitos Humanos Foro Penal Venezuelano - ligada à MUD - 565 pessoas já foram presas. 

Na madrugada, foram registrados saques em 17 estabelecimentos no bairro de El Valle. Uma maternidade teve de ser isolada em virtude de bombas de gás lacrimogêneo lançadas do lado de fora do prédio - uma ação que o governo atribuiu, sem dar provas, à oposição. "No final da noite de ontem as coisas ficaram bem feias. As pessoas que saquearam os estabelecimentos estavam armadas", disse Hane Mustafa, dono de um pequeno mercado. "O governo perdeu o controle da segurança púbçica. Perdemos tudo."

Os protestos no bairro começaram às 8h da noite, quando moradores começaram a bater panelas em suas casas. Ao panelaço, somaram-se cornetas e gritos de ordem contra o governo. As principais reivindicações eram a realização de eleições, normalização do abastecimento de comida e a renúncia de Maduro. 

Tanques da Guarda Nacional Bolivariana chegaram a El Valle para reprimir com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo quem fechou ruas com pneus queimados. Então, os saques começaram. Protestos similares foram registrados também nos bairros de Coche, El Paraíso e Petare.

Em meio à confusão, mães e recém-nascidos foram retirados de uma maternidade em Caracas, depois de o hospital ter sido invadido por gás lacrimogêneo. A ministra de Relações Exteriores, Delcy Rodríguez, acusou a oposição de "atacar o hospital", sem oferecer provas. Os manifestantes dizem que as bombas foram jogadas pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB), controlada pelo governo. 

Os bairros nos quais se registraram saques durante a madrugada amanheceram ocupados pela polícia. Postos de controle foram instalados perto dos focos de violência da noite anterior.

Força. A explosão de violência ocorreu no segundo dia de protestos consecutivos contra o governo convocados pela oposição. Outros atos estão programados para hoje e o fim de semana. 

Após anos de brigas internas e fracassos em mobilização popular, a coalizão Mesa de Unidade Democrática (MUD) conseguiu levar milhares de pessoas às ruas contra o governo pela primeira vez em três anos depois de o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) anular as competências legislativas da Assembleia Nacional e tomá-las para si. O Judiciário, controlado pelo chavismo, desistiu da decisão, mas isso não foi o suficiente para acalmar os protestos. 

"Estamos renascidos com esses 20 dias de resistência", disse o deputado opositor Freddy Guevara. Amanhã, opositores devem marchar de branco pelas ruas de Caracas para homenagear os mortos dos últimos dias. Também está previsto o bloqueio de estradas e avenidas na segunda-feira.

O chavismo reagiu com acusações de que a MUD tenta paralisar o país, há três anos imerso em grave crise de escassez de remédios, alimentos e itens de higiene. "Essa oposição falida e ferida tenta gerar o caos para convencer o mundo de que estamos em algum tipo de guerra civil", disse o deputado chavista Freddy Bernal. "É o mesmo manual usado na Síria, Líbia e Iraque."

No front econômico, o chavismo, que na véspera expropriou uma fábrica da General Motors no país, ameaçou a operadora de telefonia Movistar. O presidente Nicolás Maduro acusou a empresa, subsidiária da espanhola Telefónica, de ter feito parte da "marcha golpista de quarta-feira". O líder bolivariano disse, sem oferecer provas, de que a empresa incitou seus clientes a participar do ato por meio de mensagens. / AP, REUTERS e EFE

 

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