FEDERICO PARRA/AFP
FEDERICO PARRA/AFP

Maduro amplia poder militar na Venezuela

Presidente deu às Forças Armadas 14 dos 32 ministérios; general assumiu a PDVSA

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 05h00

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deu na semana passada o comando da PDVSA, a estatal venezuelana do petróleo, aos militares e ampliou o número de membros das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas em seu gabinete. Esse movimento, segundo analistas, tem o objetivo de consolidar seu poder político dentro do chavismo, preparar sua permanência no cargo depois das eleições de 2018 e afastar rivais dentro do bolivarianismo. 

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Com a reforma no gabinete, dos 32 ministérios de Maduro, 14 passaram a ser chefiados por militares – da ativa e da reserva. A porcentagem de 43% em relação ao total de ministros, segundo levantamento da ONG Control Ciudadano, que examina assuntos castrenses na Venezuela, é a maior do governo Maduro, que começou em 2013. 

Além disso, o líder venezuelano colocou no comando da PDVSA o general Manuel Quevedo, com o argumento de que ele comandaria uma operação anticorrupção na empresa – abalada pelo calote em sua dívida e a queda de sua produção para menos de 2 milhões de barris de petróleo diários. 

Nos dias que se seguiram, dois ex-presidentes da empresa, Eulogio del Pino e Nelson Martínez, foram detidos para interrogatório. Outro ex-chefe da PDVSA, Rafael Ramírez, colaborador próximo do presidente Hugo Chávez, estava ameaçado de perder o cargo de embaixador na ONU após criticar indiretamente a gestão econômica do governo. 

Segundo Raúl Gallegos, da consultoria Control Risks, a decisão inédita na história do chavismo de colocar um militar à frente da galinha dos ovos de ouro da Venezuela é um movimento para isolar possíveis rivais dentro do governo e consolidar Maduro como o principal nome do establishment político venezuelano. 

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“Maduro e seu grupo entregaram a PDVSA aos militares apostando que, com isso, tenham apoio deles para fazer o que for preciso para se aferrar ao poder, seja por meio da repressão ou violações eleitorais”, disse Gallegos ao [BOLD]Estado[/BOLD]. “Ele está se revelando um animal político, contrariando o que muitos diziam dele em 2013 – de que seria um líder fraco que não duraria um ano no governo.”

Segundo fontes próximas ao chavismo, antes de morrer, Chávez dividira o poder que acumulava com mão de ferro em três vertentes, que representavam o heterodoxo amálgama bolivariano: Maduro, ministro das Relações Exteriores, representando os civis do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Diosdado Cabello, os militares, e Ramírez, o responsável pela gestão do petróleo. 

Essa espécie de triunvirato funcionou mais ou menos até meados de 2014, com Maduro no Executivo, Cabello no Congresso e Ramírez na PDVSA. Pouco antes de a queda do preço do petróleo atingir o mercado internacional, Ramírez falou em reformas econômicas para reduzir o déficit fiscal e recuperar as já combalidas reservas do país, que pressionavam o câmbio fixo venezuelano. 

Os custos políticos dos cortes, depois de anos de gastos sociais na bonança do petróleo, não foram aceitos pelo governo. Na burocracia chavista, a facilidade para comprar dólares a preços preferenciais também traduziu-se numa resistência interna para desvalorizar o câmbio. Ramírez deixou o cargo em setembro de 2014 para tornar-se chanceler. Três meses depois, partiu para a ONU, uma espécie de desterro. 

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Semana passada, no Twitter e em artigos na imprensa chavista, Ramírez valorizou seu papel de aliado de Chávez e fez críticas veladas à atual gestão bolivariana. “Existem setores que ficaram muito ricos com o mercado paralelo de divisas cambiais, se aproveitando da falta de ação do Estado”, disse Ramírez. “Essas são minhas opiniões e exijo respeito, não posso aceitar que me desqualifiquem por isso.”

Na opinião de analistas, as críticas alertaram Maduro de que Ramírez poderia, no médio prazo, oferecer-lhe um risco político. “Maduro tenta tirar de perto dele gente que pode atrapalhar, como é o caso de Ramírez, que foi um dos homens mais poderosos da Venezuela”, acrescentou Gallegos. “Quando deu sinais de que poderia adotar uma independência política e optar por um caminho econômico distinto, foi tirado do caminho.”

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