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AFP PHOTO/JUAN BARRETO

Maduro anuncia ‘retificação histórica’ da economia

Presidente diz que pretende adotar uma ‘nova economia produtiva que deixe para trás a velha renda petroleira’

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Ricardo Galhardo ENVIADO ESPECIAL/ CARACAS,
O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2016 | 02h00

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou a realização de uma “grande retificação histórica” da economia. O objetivo é dar uma resposta à derrota nas eleições parlamentares de dezembro, quando a oposição obteve 112 das 167 cadeiras da Assembleia Nacional venezuelana, que coloca sob ameaça a própria continuidade do mandato de Maduro e do regime chavista iniciado em 1999. 

Em entrevista a meios de comunicação locais, sábado à tarde, no Palácio Miraflores, o sucessor de Hugo Chávez disse que pretende implementar “uma nova economia produtiva que deixe para trás definitivamente a velha renda petroleira”.

O novo ministro da Economia, Luis Salas, levará hoje para a Assembleia um decreto de Emergência Econômica Constitucional. Detalhes da mudança econômica ainda não foram revelados, mas integrantes do novo gabinete de Maduro, que assumiu na semana passada, falam em redução de barreiras para a atividade produtiva, substituição de importações e incentivo da produção agrícola local. Salas garantiu que não vai adotar “medidas neoliberais”. 

Maduro admitiu que as mudanças na economia foram pensadas depois de um estudo sobre os resultados das eleições parlamentares. O objetivo é reconquistar parte da base chavista que em peso votou na oposição em sinal de descontentamento com a economia.

Analistas políticos e aliados do governo são quase unânimes em creditar grande parte da derrota eleitoral à grave situação econômica da Venezuela, agravada com a queda do preço do barril do petróleo e, em especial, ao desabastecimento. 

As filas para compra de alimentos, remédios e utensílio de uso pessoal se tornaram parte da paisagem das grandes cidades venezuelanas. “Aqui temos fila para pegar a fila”, disse a aposentada Inez Sosa, de 67 anos, enquanto tentava pagar pelo café da manhã em uma padaria no centro de Caracas. 

Na padaria era necessário pegar uma longa fila para fazer o pedido, outra para o caixa e uma terceira para retirar o produto no balcão. O processo todo demora cerca de 25 minutos. “O pior é que os mais jovens estão começando a achar que isso é normal”, completou. 

A crise econômica e política provocou um acirramento nos ânimos dos defensores de ambos lados da disputa. No sábado o presidente da Assembleia, Henri Ramos Allup, foi hostilizado enquanto fazia compras no mercado popular de Quinta Crespo, em Caracas, um bastião chavista. O deputado foi cercado por um grupo e ameaçado com palavrões. Ele só pôde deixar o local depois da intervenção de outro grupo.

“Ramos Allup faz compras neste mercado há muitos anos. Vem sempre sozinho e nunca teve problemas”, disse Rosario Moreno, dona de uma banca no local. Para ela, as hostilidades são uma reação dos chavistas à decisão dele de mandar retirar imagens de Chávez e do herói nacional Simón Bolívar da sede da Assembleia. 

“(A retirada das imagens) Foi uma provocação, sem dúvida, mas não justifica violência. Os dois lados pensam só na disputa política enquanto o país afunda”, completou Rosario.

Enquanto Maduro anuncia a possível guinada econômica, a oposição aproveitou o fim de semana para fazer reuniões populares e coletar sugestões para projetos de lei que possam impulsionar a economia, que também devem ser apresentas hoje. 

Uma delas prevê a concessão de títulos de posse aos moradores das centenas de milhares de casas populares entregues mobiliadas e equipadas pelo governo nos últimos anos por meio do projeto Gran Misión Viviendas. “Quero poder deixar essa casa para meus filhos e netos quando morrer”, disse a cabeleireira Simone Morillo.

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