Maduro lança 'plano antigolpe' para eleição legislativa; oposição vê ameaça

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Murillo Ferrari, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2015 | 02h03

presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou que sua "revolução bolivariana está em um momento de emergência" e disse ser necessário um "plano antigolpe" para garantir a vitória do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) na eleição parlamentar de 6 de dezembro, sugerindo que o governo poderia adotar medidas para impulsionar seus candidatos diante de um cenário de possível vitória da oposição.

"Essa revolução não será traída, nem entregue, jamais", afirmou Maduro, na noite de segunda-feira, em discurso nos arredores do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), acompanhado de candidatos chavistas para a Assembleia Nacional. Na semana passada, o chavista declarou que a Venezuela "só pode ser governada por revolucionários" e os opositores deveriam "rogar para que a 'revolução' vença a eleição parlamentar".

Apesar das ameaças de Maduro, que elevou o tom contra seus adversários, o sociólogo Luis Vicente León, do instituto Datanálisis, disse não acreditar que o governo deixará de reconhecer o resultado da votação, qualquer que seja o cenário. "A ameaça com o objetivo de influenciar o voto é uma estratégia clássica do chavismo às vésperas das eleições", afirmou León ao Estado.

Para o sociólogo, o custo de uma manobra para manter o controle do Legislativo seria muito alto para Caracas, já que poderia significar a perda de apoio de parceiros importantes na região. "Como a presidente Dilma Rousseff, por exemplo, poderia reconhecer e apoiar um governo venezuelano que rechaça ou não reconhece um triunfo eleitoral de seus adversários no Congresso?"

O analista também afirmou que a declaração de Maduro seria um sinal da deterioração do respaldo popular ao governo, cada vez mais associado à crise econômica que afeta o país, que tem hoje a maior inflação do mundo e sofre com a escassez de itens de primeira necessidade - a pesquisa mais recente do Datanálisis indicou que o presidente é aprovado por apenas 22% dos venezuelanos, o menor índice de um líder desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999.

Além disso, as pesquisas para as eleições parlamentares divulgadas pela imprensa venezuelana em outubro colocam os candidatos chavistas com 20,9% das intenções de voto, enquanto os candidatos opositores tiveram 40,4% da preferência, em média.

O deputado Carlos Eduardo Berrizbeitia, da Mesa de Unidade Democrática (MUD) - principal coalizão opositora do país -, qualificou como "muito perigosa" a convocação do plano antigolpe de Maduro. "Lamentavelmente, ficamos com a sensação de que o presidente e seu partido não admitirão a derrota. O próprio Maduro já falou que eles têm de vencer 'de qualquer forma', o que é algo bem atípico para uma campanha eleitoral", afirmou Berrizbeitia.

Maduro, que foi ao CNE para assinar um documento se comprometendo a aceitar os resultados das eleições, disse que são os opositores que não reconhecerão a votação.

"Nós sabemos de antemão que eles não reconhecerão o resultado, que não estão fazendo campanha, que buscam apoio internacional para tentar causar prejuízo à Venezuela", acusou o presidente.

Em sua conta no Twitter, o número 2 do chavismo e presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, escreveu que a oposição não assinou o mesmo documento que Maduro "porque, para eles, a paz não serve. Eles querem o caos".

O secretário executivo da MUD, Jesús "Chúo" Torrealba, rebateu as acusações, dizendo que o documento validado por Maduro não tem seriedade. "Que acordo é esse relativo aos resultados que foi assinado por alguém que já disse que ganhará a eleição de qualquer jeito?", ironizou.

A coalizão, que protestou em várias oportunidades contra o bloqueio imposto pelo governo à observação estrangeira da eleição e pela suposta utilização de recursos públicos para campanhas de candidatos chavistas, apresentou há quase duas semanas uma proposta de acordo que, segundo a aliança, não teve resposta do CNE. / COM EFE

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