Ammar Abdullah/REUTERS
Ammar Abdullah/REUTERS

Mais de 7 mil pessoas são retiradas de quatro cidades sírias sob cerco

Após quase dois anos vivendo sob ameaças e bombardeios, civis e combatentes deixam regiões sitiadas. O fim do conflito, porém, pode não estar próximo

O Estado de S.Paulo

15 Abril 2017 | 05h26

BEIRUTE - Depois de quase dois anos de cerco e bombardeio por seus inimigos, mais de 7 mil pessoas foram retiradas de ônibus de quatro cidades na Síria nesta sexta-feira, 14, na mais recente transferência da população durante seis anos de guerra.

As evacuações de civis e combatentes destacaram a prevalência do cerco de guerra no país na medida em que a violência prolongada alterou o tecido humano das comunidades em toda a Síria.

Como o presidente Bashar Al Assad tem lutado para acabar com um movimento rebelde, buscando a expulsão, suas forças têm cercado frequentemente comunidades rebeldes e bloqueado as entregas de ajuda e comércio como uma maneira de impor a fome e forçar a rendição. Onde eles podem, rebeldes têm feito o mesmo.

Muitos desses que estão saindo de suas comunidades não esperam retornar, juntando-se à metade da população pré-guerra (de 22 milhões de pessoas) que tem sido deslocada pela guerra. Cinco milhões desses tornaram-se refugiados nos países vizinhos, na Europa e em outros lugares.

"O mundo, a Europa e o Oriente Médio podem esperar mais refugiados, e ninguém quer isso", disse Valerie Szybala, diretora executiva do Instituto Síria, acrescentando que o uso de cerco para forçar as pessoas a deixar suas casas também planta sementes de futuros conflitos.

"De certa forma, isso significa que o conflito nunca acabará", disse ela. "Isso está criando uma lógica permanente para conflito e criando preocupações que não serão fáceis de curar."

De acordo com o Siege Watch, um projeto executado pelo Instituto Síria e a organização holandesa PAX, mais de 900 mil sírios estão vivendo em estado de sítio em 37 áreas em todo o país e mais de 1 milhão estão sob ameaça de cerco.

Em busca de controlar as comunidades rebeldes, Assad bloqueou rebeldes junto com civis, forçando-os a concordar em sair ou se renderem e se reconciliarem com o governo. Essas táticas, muitas vezes acompanhadas por bombardeio, têm ajudado o presidente sírio a recuperar o controle de um número de comunidades próximas à capital Damasco, bem como partes das cidades de Homs e Aleppo.

Críticos dizem que a estratégia se iguala à transferência forçada da população, que pode ser um crime de guerra. Um inquérito da ONU disse que a evacuação de rebeldes a leste de Aleppo no ano passado foi equivalente a um crime de guerra porque foi coagida por uma ação militar russa e síria. Mais de 20 mil pessoas foram transportadas para fora da cidade antes das forças de Assad consolidarem o controle.

As evacuações desta sexta-feira foram em quatro cidades. Fua e Kafraya, duas comunidades xiitas na província de Idlib leais a Assad, foram rodeadas por insurgentes sunitas durante dois anos. Madaya e Zabadani, duas cidades de maioria sunita perto da fronteira da Síria com o Líbano, estão cercadas por forças do governo sírio e combatentes da milícia Hezbollah do Líbano.

Cerca de 5 mil moradores foram removidos dos vilarejos xiitas na sexta e outros 3 mil foram retirados no fim do dia, de acordo com Firas Amoura, que ajudou a coordenar a evacuação em nome do governo sírio. Mais de 2200 pessoas saíram de  Madaya de ônibus e cerca de 150 combatentes rebeldes estavam esperando para serem removidos de Zabadani.

As evacuações foram intermediadas pelo governo sírio e pelo Irã de um lado e Qatar, representando os rebeldes, por outro, e realizadas pela Cruz Vermelha Árabe-Síria. As Nações Unidas não desempenharam papel na operação.

As pessoas que deixaram as aldeias xiitas foram para Aleppo. Os ônibus que partiram das cidades controladas pelos rebeldes foram para a província de Idlib. Sair de casa foi amargo para muitos, mas veio depois de um longo período de privação. "Todo mundo quer sair", disse Medhi Kirbash, um residente de uma das cidades xiitas, enquanto esperava para entrar em um ônibus. "Nós odiamos até mesmo as roupas que temos vestido pelos últimos dois anos de cerco." /NYT

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