AP Photo/Steve Helber
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Dia de manifestação de supremacistas brancos termina em violência e 3 mortes nos EUA

Estado da Virgínia decreta emergência; analistas e veículos de imprensa americanos classificaram atropelamento durante marcha de 'ato de terrorismo doméstico'

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2017 | 14h26
Atualizado 14 Agosto 2017 | 15h25

CHARLOTTESVILLE - Três pessoas morreram e 34 ficaram feridas no fim de um dia de caos e confrontos neste sábado, 12, em Charlottesville, na Virgínia, durante a maior manifestação de defensores da supremacia branca da história recente do EUA. Uma das mortes ocorreu quando um motorista avançou com seu carro contra uma multidão que protestava contra a marcha e o racismo. Analistas e veículos de imprensa americanos classificaram o atropelamento como "ato de terrorismo doméstico".

Autoridades locais investigavam ainda duas mortes de policiais que estavam em um helicóptero que caiu perto de Charlottesville. Apesar de ligarem essas duas mortes aos protestos, as autoridades não deixaram claro como os dois fatos estavam conectados. A Polícia da Virgínia confirmou que o helicóptero pertencia à corporação e os mortos nesse acidente eram os policiais Jay Cullen e Burke M.M. Bates, que davam apoio aos agentes em solo. 

O motorista foi preso e identificado pela polícia como James Alex Fields Jr., branco, de 20 anos, do Estado de Ohio. Dos 34 feridos, 19 foram vítimas do atropelador. Ele responderá pelo homicídio de sua vítima, uma mulher de 32 anos, de acordo com as autoridades locais.  

Em um pronunciamento ambíguo, no qual não mencionou supremacistas brancos, o presidente Donald Trump condenou a “flagrante manifestação de ódio, intolerância e violência de muitos lados, de muitos lados”. 

Trump também expressou mensagens de união e inclusão: “Não importa nossa cor, fé, religião ou partido político, nós somos todos americanos em primeiro lugar”. Mas relativizou o primeiro grande choque racial de sua gestão: “Isso está ocorrendo há muito tempo em nosso país. Não é Donald Trump, não é Barack Obama”. Durante o governo de seu antecessor, a maioria dos episódios de tensão foram provocados pela morte de adolescentes ou homens negros desarmados pela polícia. 

Supremacistas brancos apoiaram a candidatura de Trump e sua eleição os encorajou a se tornaram mais ativos e visíveis. Ex-líder da Ku Klux Klan, David Duke estava em Charlottesville e disse que a marcha de hoje representou um “momento decisivo” para a população americana.

“Nós estamos determinados a tomar nosso país de volta. Nós vamos realizar as promessas de Donald Trump. É nisso que acreditamos e é por isso que nós votamos em Donald Trump”, disse Duke em vídeo gravado por um fotógrafo do jornal Indianapolis Star.

Os confrontos começaram na sexta-feira à noite, quando os participantes da marcha “Unir a Direita” carregaram tochas no campus da Universidade da Virgínia, em uma cena que evocava reuniões da Ku Klux Klan. O grupo de centenas de homens brancos gritava “Você não vai tomar o nosso lugar” e “Judeus não vão tomar nosso lugar”.

Com capacetes e bandeiras confederadas nas mãos, eles voltaram às ruas da cidade ontem, repetindo slogans nazistas. Novos conflitos ocorreram quando manifestantes contrários à marcha se aproximaram, gritando seus próprios slogans contra o racismo. Segundo a polícia, 14 pessoas ficaram feridas nos confrontos. 

Com 47 mil habitantes, Charlottesville é uma cidade universitária, na qual 80% dos eleitores votaram na democrata Hillary Clinton. Em abril, a Câmara de Vereadores aprovou lei determinando a remoção de um estátua de bronze do general Robert Lee localizada no parque que tinha o seu nome e foi rebatizado de Parque da Emancipação. Durante a Guerra Civil (1862-1865), Lee foi um dos comandantes do Exército Confederado, do Sul, que se opunha à abolição da escravatura defendida pelos Estados do Norte e o presidente Abraham Lincoln.

Desde a aprovação da lei, Charlottesville se transformou em um imã para os defensores da supremacia branca, um grupo marginal na sociedade americana que se tornou mais ativo no governo Trump. Pequenas manifestações contra a lei foram realizadas em maio e julho.

À diferença do que ocorre na Europa, o discurso de ódio não é proibido nos EUA, onde conta com a proteção da Primeira Emenda da Constituição, que garante a liberdade de expressão. A primeira reação de Trump ao que ocorreu em Charlottesville veio no Twitter, às 13h19: “Nós TODOS devemos estar unidos & condenar tudo o que o ódio representa. Não há lugar para esse tipo de violência na América.” Duke, o supremacista branco, respondeu ao presidente às 14:03. “Eu recomendaria que você olhasse bem no espelho e lembrasse que foram os brancos americanos que o colocaram na Presidência, não esquerdistas radicais.”

 

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