EFE/Andy Rain
EFE/Andy Rain

May, a estrategista

Premiê se tornará intocável caso consiga obter uma nova maioria em 8 de junho

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

20 Abril 2017 | 05h00

Usando um vestido escuro, com um ar marcial, britânico, não muito amistoso, voz sóbria, crispada, Theresa May, que assumiu o governo do Reino Unido em julho após a renúncia de David Cameron, tomou a palavra, para surpresa de todos – ou quase todos.

Expressando-se na primeira pessoa, contrariamente à tradição, a primeira-ministra britânica fez um anúncio solene. Convocou a população a ir às urnas para votar em eleições antecipadas marcadas para 8 de junho, pouco depois de um ano após o referendo no qual os eleitores decidiram que o Reino Unido se separará da União Europeia (UE).

Por que uma decisão tão abrupta? May pretende que a votação seja uma espécie de “eleição presidencial” – alguns falam em plebiscito –, antes do início do “núcleo duro” das negociações que seu país deverá manter com Bruxelas para resolver as modalidades infinitamente complexas do seu divórcio com o bloco europeu.

Para alguns, a energia dedicada por Theresa May visando à aplicação do Brexit é pitoresca e até paradoxal, pois no campo dos conservadores ela era uma das raras figuras que se colocaram contra a saída da UE. Era o seu “pecado original”. A votação antecipada que convoca agora parece ter como objetivo apagar essa marca.

E não é tudo. May esclareceu que deseja um “Brexit duro”, categórico e quase heroico, sem medidas paliativas no plano aduaneiro, por exemplo. Isso não surpreende. No “romance” do Reino Unido, essa atitude intransigente é de lei. Ao longo dos séculos o país mostrou que é destemido, um leão. Diante de alguns silêncios pausados em seu discurso, no entanto, poderíamos crer que May, no fundo, é mais branda do que demonstra em público e aceitaria um Brexit um pouco menos “duro”.

Mas admitir agora esse “desejo oculto” seria perigoso porque no seu partido há um bando de exaltados que sonha com um Reino Unido transformado num vasto paraíso fiscal, desembaraçado de todos esses imigrantes e livre das leis sociais que são estraga-prazeres dos gentis patrões britânicos.

Assim, se um confronto entre os defensores de um “Brexit duro” e os que promovem um “Brexit brando” explodisse agora, Theresa May seria aniquilada. Mas a premiê se tornará intocável caso consiga obter uma nova maioria em 8 de junho.

Hoje, as circunstâncias são favoráveis à líder conservadora. A economia britânica ainda não sofreu grandes desgastes, pois na verdade ainda não saiu da UE. Mas daqui a dois anos, as estimativas são de que segmentos inteiros da economia britânica estarão cambaleando.

Se eleições fossem realizadas nessas circunstâncias, ela seria derrotada. Antecipando a votação popular para 8 de junho, ela tem a chance de evitar essa situação. Não sabemos ainda se May é uma grande economista. Mas é uma sutil estrategista. / Tradução de Terezinha Martino 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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