Michael E. Miller/The WashingtonPost
Michael E. Miller/The WashingtonPost

Meninas sobem escalões em violenta gangue latina

‘Filial’ da Mara Salvatrucha nos EUA, a MS-13, recruta jovens para cometer crimes violentos

O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 05h00

Durante 15 anos elas viveram vidas paralelas. Abandonadas em El Salvador pelas mães que foram para os EUA, elas cresceram em San Vicente, a alguns quilômetros de distância, e eram adolescentes quando a cidade mergulhou na violência das gangues.  

Elas fugiram uma depois da outra com semanas de diferença, seguindo para o norte em 2014 pela mesma rota do contrabando, até chegarem aos subúrbios de Washington.  Foi ali que Venus Iraheta e Damaris Reyes Rivas finalmente se encontraram, depois de se envolverem com a mesma violenta gangue de rua, a MS-13, e foi ali, num parque arborizado em Springfield, Virgina, que Venus apunhalou Damaris 13 vezes.  

Mesmo em meio a um aumento em todo o país dos crimes cometidos pelo MS-13 em 2017, o assassinato se destacou. Vítimas mulheres não constituem uma novidade no caso do MS-13, conhecido na América Central por fazer com que as jovens escolham entre o estupro ou a execução.  

Mas numa gangue tão chauvinista quanto temida, não se ouvia quase falar de mulheres assassinas.  

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Citando o caso de Iraheta, hoje com 18 anos, que aguarda sentença de condenação no fim deste mês, as autoridades afirmam que o crime pode ser uma indicação do envolvimento crescente das mulheres no MS-13 nos Estados Unidos.  

Ao contrário do grupo na América Central, algumas facções do MS-13 nos Estados Unidos permitem hoje a entrada de mulheres, disse Michael Prado, agente especial encarregado da área de Investigações no Departamento de Segurança Interna em Washington, uma divisão da Agência de Imigração e Alfandegária (ICE na sigla em inglês).  “Neste aspecto, eles são um pouco progressistas. Aqui eles estão um pouco mais, na falta de um termo melhor, ‘americanizados’”.  

Em resposta, a ICE deu instruções aos seus agentes para investigarem meninas e jovens tão atentamente quanto os homens no tocante ao envolvimento com a gangue, disse Prado.  “Há mulheres membros da MS-13 envolvidas em atividades cruéis e violentas”, ele acrescentou.  

Algumas aderiram à MS-13 para fugir da pobreza, da falta de moradia ou do abuso sexual, para depois se prostituírem pela gangue, afirmam os defensores da imigração. Outras são atraídas pela reputação da gangue – com freqüência mencionada pelo presidente Trump – considerada a mais perigosa do mundo.  

“A MS-13 é o novo mau elemento na vida das garotas”, disse Carlos Salvado, advogado de defesa que tem representado as jovens acusadas de conexões com o grupo. “Os pais ficam sabendo o que sua filha está fazendo quando são chamados pela polícia”.  

Numa série de entrevistas na prisão, Venus disse ao Washington Post que foi apresentada ao MS-13 ainda criança. Negou ser membro do grupo, mas defendeu a gangue. “Eles não são os monstros que as pessoas acham que são. Vocês não conhecem as histórias deles, o que aconteceu que os levou para esse caminho”.  

No verão de 2003, um pescador que trabalhava nas águas escuras do Rio Shenandoah, na Vírginia, descobriu à margem do rio, sob uma ponte, o corpo inteiramente tatuado de uma jovem de 17 anos.  Brenda Paz era integrante do MS-13. Mas “Smiley”, como era conhecida, queria sair do grupo e começara a ajudar as autoridades federais. Ela estava grávida de quatro meses quando membros do MS-13 cortaram sua garganta. Sua deserção, e outras como a dela, convenceu os líderes da gangue em El Salvador que mulheres não eram confiáveis e proibiram sua entrada no grupo.  

Ser uma “homegirl” (camarada) antes assegurava alguma proteção, disse Tom Ward, antropólogo que passou grande parte dos anos 90 se relacionando com a gangue em Los Angeles, onde foi fundada, para escrever seu livro Gangsters Without Borders (Gangsters sem Fronteiras).  

“Havia uma regra implícita que você não podia estuprar uma “homegirl”, disse ele. “Elas não comandavam, mas algumas eram muito respeitadas.” 

A proibição atingiu duramente as mulheres em El Salvador, onde ainda são forçadas a servir a gangue, cozinhando ou limpando, levando contrabando para as prisões ou encarregadas de receber pagamentos de extorsão, segundo o jornalista salvadorenho Óscar Martínez.  

“Estamos vendo um número cada vez maior de meninas entrando em gangues como escravas sexuais”, disse Silvia Juárez, pesquisadora da Organização das Mulheres para a Paz em El Salvador. “Hoje vemos garotas de 9 anos sendo abusadas. E  aquelas que resistem são assassinadas”, acrescentou.  Milhares fugiram. 

As meninas constituem um terço dos 200 mil menores desacompanhados da América Central detidos na fronteira entre Estados Unidos e México desde 2012.  Uma pequena porcentagem dessas garotas ingressou na MS-13 depois de serem colocadas sob a guarda de parentes nos Estados Unidos. Seu recrutamento impulsionou a gangue ali, mas também começou a mudá-la, dizem as autoridades.  

Promotores da área de Washington afirmam ter observado um aumento do envolvimento feminino nos últimos anos - sinal de que novos grupos nos Estados Unidos talvez não estejam aderindo à proibição das “homegirls”.  “Eles estão incluindo mulheres nas suas atividades mais do que no passado”, disse Paul Ebert, procurador de Estado da Virgínia para a região de Prince William County. 

“Em muitos casos, disse ele, “elas ficam às margens do crime, funcionando como motoristas numa fuga ou isca para atrair homens numa emboscada”.  “Vemos isto continuamente, mas também observamos um aumento da sua atividade violenta”, disse Patrick Lechleitner, agente especial.  Quando um sem-teto foi esfaqueado até a morte atrás de uma loja de bebidas em Suitland, Maryland, em 2014, entre os seis presos pelo crime estava uma jovem de 17 anos.  

Katherine Lopez havia ingressado na MS-13 em Las Vegas, depois que foi sexualmente abusada por um membro da família, como relatou sua mãe ao Post. Alguns meses antes do assassinato, ela havia fugido de casa e se envolveu com o MS-13.  

Quando o sem-teto disse alguma coisa a ela na frente da loja, ela agarrou seu braço enquanto os outros o esfaqueavam. Ela assumiu a culpa em 2015 e foi condenada a 10 anos de prisão.  

As garotas nos Estados Unidos não são forçadas a entrar na gangue como ocorre na América Central. Mas com freqüência elas ingressam no grupo por causa de um trauma, da pobreza ou da solidão, dizem os defensores. Menores desacompanhadas são particulamente vulneráveis, mas as meninas que cresceram nos Estados Unidos não estão imunes. Katherine, que vivia legalmente no país, mudou-se de El Salvador para os Estados Unidos quando tinha 3 anos. / The Washington Post 

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