Merkel está disposta a abandonar a Grécia

No fim de semana, partido que lidera pesquisas em Atenas propôs calote de dívidas

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2015 | 11h37

GENEBRA - A chanceler alemã, Angela Merkel, estaria disposta a abandonar a Grécia e ver Atenas deixa a zona do euro. A informação foi publicada neste fim de semana pela revista Der Spiegel, que indicou uma reviravolta na posição da chanceler e que mandou um claro recado aos eleitores gregos que vão às urnas no dia 25 de janeiro para que não apoiem o partido radical de esquerda e que é contra as medidas de austeridade. 

Na segunda-feira, eleições antecipadas foram convocadas na Grécia, depois que o Parlamento não conseguir chegar a um acordo para escolher o presidente. A nova crise, porém, abriu caminho para a primeira vitória da esquerda radical e que promete, uma vez no poder, renegociar as condições do resgate de 240 bilhões de euros. 

O partido Syriza, que lidera há 14 meses as pesquisas de opinião, promete o fim da austeridade. "O futuro começou", comemorou seu líder, Alexis Tsipras, que defende inclusive um default parcial de suas dívidas. "Pediremos com realismo a suspensão da maior parte da dívida, que seria impossível ser paga", disse. 

Essa dívida deveria ser assumida pelos mecanismos europeus de financiamento e uma parte dela ainda seria "paga o crescimento" da Grécia. Segundo ele, desde a eclosão da crise em 2008, o país viu sua dívida aumentar em 30%, chegando a 170% do PIB e 320 bilhões de euros. 

No sábado, ele apresentou seu programa de governo, prevendo um "pacote humanitário" de 1,3 bilhão de euros, a elevação do salário mínimo (hoje a 500 euros) e a nacionalização de empresas de água e de luz que haviam sido vendidas pelo estado como parte da receita da UE. Segundo o partido, 800 mil gregos devem perder suas casas ou seus negócios em 2015.  

Mas, na visão de Merkel, uma vitória do Syriza criaria um cenário em que a saída da Grécia da zona do euro seria"quase inevitável". Segundo a revista, Merkel e seu ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, "julgam suportável uma saída do país da moeda única diante dos progressos atingidos pela zona do euro, depois do auge da crise em 2012". Hoje, segundo eles, a saída da Grécia teria "um risco de contágio limitado". 

Fontes do governo alemão consideram que Portugal e Irlanda são "casos sanados". Além disso, o mecanismo de estabilidade criado permitiria estabilizar uma eventual crise. Já a união bancária garantiria uma segurança nos créditos. 

Na semana passada, Schäuble já havia alertado que "não existe nenhuma alternativa" às reformas. Um dos principais aliados de Merkel no Parlamento, Michael Fuchs, indicou que não existiria a necessidade mais de um governo manter a Grécia na zona do euro.

Nem todos concordam com a declaração. O secretário de estado para Assuntos Europeus, do partido social-democrata, acredita que a Grécia "precisa ficar na zona do euro". 

No sábado, pesquisas de opinião indicaram que o Syriza continua liderando, com 30,4% dos votos, contra 27,% para o partido conservador Nova Democracia. Os socialistas do PASOK, um dos partidos mais tradicionais da Grécia, soma apenas 3,5% da preferência do eleitorado. 

No fim de semana, o ex-primeiro ministro grego socialista, George Papandreou, anunciou a formação de um novo partido. 

Doméstico - Mas a preocupação da Europa não se resume à crise grega. De Madri a Londres, passando por Roma e Paris, o temor é de que a vitória dos radicais na Grécia abra espaço para o fortalecimento de grupos que combatem a austeridade dos últimos seus anos. Se, em 2015, pouco a pouco esses grupos avançarem, o temor de Bruxelas é de que toda a arquitetura montada para recuperar a economia do bloco esteja ameaçada. 

Na Espanha, o movimento Podemos ameaça romper com um sistema bipartidário que governa o país desde os anos 70, propondo uma agenda mais próxima dos cidadãos, o combate à autoridade e à corrupção. 

No Reino Unido, grupos radicais de direita também ganham votos, enquanto na França o partido xenófobo de Marinne Le Pen avança diante de uma estagnação generalizada. 

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