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Meu momento não diplomático

Eleição dos EUA é momento para discussão sobre como preservar conquistas femininas

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Madelieine Albright,
New York Times

16 Fevereiro 2016 | 08h35

Passei grande parte da minha carreira como diplomata, uma função em que palavras e contexto importam muito. Assim, as pessoas poderiam imaginar que sei o suficiente para evitar mandar um grande número de mulheres para o inferno.

No sábado passado, no calor de um evento de campanha em favor de Hillary Clinton em New Hampshire, no entanto, foi basicamente o que fiz, quando emiti uma frase que já pronunciei milhares de vezes, provocando aplausos, gestos de aprovação e risadas: “Existe um lugar especial no inferno para as mulheres que não se ajudam”. Usei essa frase pela primeira vez há quase 25 anos, quando era embaixadora dos EUA nas Nações Unidas e trabalhei em estreita colaboração com outras embaixadoras. Mas desta vez, para minha surpresa, ela se tornou viral.

Acredito inteiramente no que disse, que as mulheres devem se ajudar, mas o contexto e o momento foram errados. Não quis afirmar que as mulheres devem apoiar um candidato específico com base unicamente no gênero. Mas sei que deparo com pessoas que discordam das minhas preferências políticas. Se o céu estivesse aberto apenas para os que concordam em política, imagino que estaria totalmente vazio.

Mas quero explicar por que acredito firmemente que, mesmo hoje, as mulheres têm obrigação de se ajudar. Numa sociedade em que, com frequência, elas são pressionadas a se demolir, a salvação está na nossa disposição a nos reerguer. E embora as jovens talvez não queiram mais ouvir essa feminista idosa, acho importante dirigir-me às mulheres em idade adulta num momento em que uma candidata mulher viável à presidência – algo antes inconcebível – é uma realidade.

Debate. Estou fora da função pública há uma década e meia. Consagrei grande parte desse período da minha vida a ensinar, escrever e trabalhar para as mais jovens enfrentarem menos obstáculos do que a minha geração. Quando falo para mulheres de todas as idades, me espanto com o fato de que, apesar de todas as mudanças, as perguntas são as mesmas: “Como você consegue equilibrar sua vida e o trabalho? O que posso fazer para triunfar numa profissão masculina? Que conselhos daria à minha filha?”.

Quando procuro responder a essas perguntas, inevitavelmente penso nas dificuldades enfrentadas pela minha geração. E dou alguns exemplos, mas não para lamentar como foi difícil minha vida. E o efeito tem sido positivo. O que me preocupa é que, se não prestarmos a devida atenção a essa história, o que conquistamos com muita luta pode ser perdido e retrocederemos. Não tenho uma fórmula mágica para uma mulher viver sua vida, mas sei que precisamos nos dar as mãos.

A batalha pela igualdade de gênero continua e será mais fácil se tivermos uma mulher que dê prioridade a esses temas no Salão Oval e se o equilíbrio de gêneros entre as autoridades eleitas refletir isso em nosso país. Quando mulheres têm o poder para tomar decisões, a sociedade se beneficia. Elas debaterão os assuntos, aprovarão projetos de lei e injetarão recursos em projetos que os homens subestimam ou aos quais se opõem.

Apesar de décadas de progresso, as mulheres ainda ganham menos do que os homens por trabalho igual. O abuso sexual contra as mulheres continua a atormentar nossas comunidades. E muitos políticos ainda agem como se a maior ameaça à nossa segurança nacional fosse o planejamento familiar.

Os eleitores precisam tomar uma decisão consciente quanto ao candidato tendo por base temas que são importantes para eles, e isso naturalmente não se limita a gênero.

Mesmo assim, estou preocupada com o tom do debate envolvendo muitos problemas que dizem respeito especificamente às mulheres. Não devemos ser complacentes nem esquecer o duro trabalho que nos coube para chegar onde estamos. Diria que, diante do que está em jogo, é o momento exato de uma discussão sobre como preservar o que as mulheres já conquistaram.

Minha esperança é a de que as jovens que vivem em um mundo onde o processo Roe versus Wade (ação em que a Suprema Corte dos EUA reconheceu o direito ao aborto) se tornou lei, que praticaram esportes no colégio graças ao Título IX, que estabeleceu a igualdade de gênero na educação, e jamais tiveram de escrever “casada” ou “solteira” numa solicitação de emprego – se realizarão com base nos avanços que fizemos. Mas isso somente ocorrerá se as mulheres se ajudarem. E para estas sempre haverá um lugar de honra especial. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*MADELIEINE ALBRIGHT É EX-SECRETÁRIA DE ESTADO DOS EUA (1997 A 2001)

 

 

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