'Meu pai era um agente da Stasi'

BERLIM - Ines Geipel é dona de uma biografia tão fantástica quanto a de personagens dos filmes sobre a Guerra Fria. Criada na Alemanha Oriental e filha de um agente da polícia secreta socialista, ela foi atleta da equipe nacional que quebrou o recorde mundial no revezamento 4 x 100 em 1984.

Entrevista com

Ines Geipel, escritora

Melina Costa, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h30

Decepcionada com o regime, ela fugiu para a Alemanha Ocidental, onde foi coautora em um processo contra os responsáveis pelo doping forçado de atletas na Alemanha Oriental.

Hoje, Ines é escritora, presidente do Grupo de Apoio a Vítimas de Doping e professora da Escola de Artes Dramáticas Ernst Busch, em Berlim. Neste ano, lançou o livro “Generation Mauer: ein porträt”, ou “Geração do Muro: um retrato”. Leia abaixo a entrevista que concedeu ao Estado.

Como foi crescer e ser educada na Alemanha Oriental?

Eu vim de uma família comunista e cresci em Dresden. Era uma cidade totalmente sem acesso à mídia ocidental. Isso significa que eu era uma menina absolutamente doutrinada. Não sabia o que era o muro de Berlim. Na minha família, ninguém falava sobre esse problema. Também na escola. Quando eu tinha 14 anos, meus pais me enviaram para um internato. Meu pai era um agente da Stasi (a polícia secreta da Alemanha Oriental) e não queria que eu soubesse o que ele realmente fazia. Ele era um agente do terror. Por 14 anos, foi para o oeste e voltou para o leste, foi para o oeste e voltou para o leste.

Como a sra. tornou-se atleta?

Em 1977 eu entrei no esporte como velocista. Eu também saltava longas distâncias. Conquistei o recorde mundial na categoria 4 x 100, mas depois de 1989 (quando caiu o muro de Berlim) eu o devolvi por conta do sistema esportivo criminoso da Alemanha Oriental. Em 1974, a Alemanha Oriental deu início a um sistema de doping, como parte de um plano conspiratório de Estado. Eles deram esteroides a 15 mil atletas, mas os atletas não tinham informações sobre essas substâncias e esse plano. Eles usaram os comprimidos como remédio porque os treinadores disseram 'é importante, você tem que usar isso', ou 'você está treinando muito, precisa de vitaminas'. Hoje, mais de mil atletas estão muito doentes. Muitos da época da Alemanha Oriental estão mortos. Sou presidente do Grupo de Apoio a Vítimas de Doping. Todos os dias ouço histórias terríveis sobre vidas destruídas.

Como e por que a sra. escapou da Alemanha Oriental?

Eu fugi para o oeste no verão de 1989. Eu vivi um monte de experiências difíceis no tempo da Alemanha Oriental. Para mim, foi o suficiente. Foram experiências fortes o suficiente por uma ditadura. Eu queria viver livre, distante do meu pai-terror e do sistema político. A Alemanha Oriental gostava de destruição. Isso não é bom quando você gosta de uma vida livre.

Em seu novo livro “Geração do Muro”, a sra. entrevistou alemães orientais que construíram uma nova vida na Alemanha Ocidental. Como a sra. descreveria essa geração?

Uma mudança real de destino é um longo caminho. Necessita de tempo e um pouco de sorte. Muitos da nossa geração vivem e trabalham no mundo de hoje. Mas muitos de nós não alcançaram a liberdade, há ainda muros internos devido a duras experiências do tempo da Alemanha Oriental.

Ver-se livre de uma ditadura e ser recebido pelo “mundo livre” deve ter criado grandes expectativas para a sua geração. Até que ponto essas expectativas foram supridas?

Eu vejo nas leituras do meu livro que as pessoas do antigo lado oriental estão decepcionadas. Apenas agora, em novembro de 2014, o povo do leste começa a falar de suas experiências. As pessoas precisaram de tempo por causa das dificuldades na Alemanha Oriental e também depois de 1989. Os alemães orientais não estavam preparados para o oeste, para o sistema livre. Eles brigaram contra experiências traumáticas e agora precisam mudar, realmente a mudar. Eu acho que eles precisam de mais empatia, mais ajuda, não só dinheiro.

Mais conteúdo sobre:
Muro de Berlim Alemanha queda do muro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.