EFE/EDUARDO CAVERO
EFE/EDUARDO CAVERO

Milhares de peruanos pedem renúncia de presidente após perdão a Fujimori

Cerca de 5 mil pessoas se reuniram em Lima para protestar contra decisão de Pedro Pablo Kuczynski de soltar ex-presidente condenado por crimes contra humanidade

O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2017 | 08h36

O presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski, que conseguiu escapar a destituição na semana passada, vive uma nova crise, após o indulto concedido ao ex-presidente Alberto Fujimori. Milhares de peruanos saíram às ruas de Lima na noite de segunda-feira (25) para protestar contra a decisão e exigir a renúncia do chefe de Estado.  

Cerca de cinco mil pessoas marcharam na segunda-feira na capital peruana, criticando o indulto concedido a Fujimori e exigindo a renúncia de Kuczynski. "Fora, fora PPK!", gritaram os manifestantes que carregavam cartazes com dizeres "Fujimori, assassino e ladrão".

Entre os participantes da marcha, estavam as famílias de 25 vítimas assassinadas por esquadrões da morte do Exército durante o regime de Fujimori. O caso foi acabou levando Fujimori à prisão, após ser condenado como responsável pelos homicídios.

Os parentes das vítimas pretendem recorrer à Corte Interamericana para pedir a anulação do indulto. "Não é possível indultar estes crimes contra a humanidade", afirmou Carlos Rivera, advogado das vítimas.

O protesto terminou em confrontos com as forças de segurança. Policiais usaram gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes e evitar que caminhassem até a clínica em que Fujimori está internado. 

Em discurso transmitido por rádio e televisão na noite de segunda-feira, Kuczynski tentou justificar o indulto, alegando que o concedeu para tentar reconciliar o país antes que Fujimori morresse na prisão.

"Estou convencido que aqueles que são democratas não devem permitir que Alberto Fujimori morra na prisão, porque justiça não é vingança", disse o presidente. "Foi a decisão mais difícil da minha vida", completou.

O indulto estremeceu o governo. A bancada parlamentar de Kuczynski - 17 deputados de um total de 130 -, registrou as renúncias de três legisladores até o momento.

Kuczynski indultou e concedeu o perdão presidencial no domingo (24) a Fujimori, com base em um relatório de uma junta médica. Os especialistas determinaram que Fujimori "sofre de uma doença progressiva, degenerativa e incurável e que as condições carcerárias significam um sério risco para sua vida, saúde e integridade".

Peru polarizado

 

As reações ao indulto a Fujimori mostram um Peru polarizado, dividido entre simpatizantes do fujimorismo e a indignação de seus críticos, que pretendem impugnar a medida em tribunais internacionais.

"O que aconteceu não garante a estabilidade, estamos avançando para uma nova instabilidade", avalia o analista Mirko Lauer.

   

O contexto da decisão de Kuczynski, três dias depois de evitar seu afastamento do cargo pelo Congresso, sob a acusação de mentir por não revelar serviços de assessoria à empreiteira brasileira Odebrecht, alimentou a fúria do antifujimorismo.

   

O fracasso da moção para o impeachment de Kuczynski na última quinta-feira (21) no Congresso peruano evidenciou uma possível troca de favores com o grupo rival do presidente, liderado pelo filho de Fujimori, Kenji Fujimori. Unindo-se a outros nove congressistas, ele evitou que Kuczynski fosse destituído. 

"É evidente que aconteceu uma troca da destituição pelo indulto", destacou Lauer. 

Fujimori, de 79 anos, passou a primeira noite em liberdade hospitalizado na UTI da clínica para onde está desde o último sábado (23) em razão de uma arritmia cardíaca e queda de pressão. Ele permanecerá no local até sua recuperação e uma série de exames, segundo o médico pessoal de Fujimori, Alejandro Aguinaga. "A alta dependerá da evolução e em consequência disso será tomada uma decisão", declarou.

O ex-presidente foi condenado a 25 anos de prisão em 2009 por crimes contra a humanidade e corrupção. Na prisão, ele desenvolveu um câncer na língua, além de apresentar problemas cardiovasculares.

Do lado de fora da clínica onde está internado, dezenas fujimoristas manifestaram apoio ao ex-presidente, apesar dos abusos cometidos durante seu regime. Muitos o reconhecem por ter conseguido derrotar os guerrilheiros do Sendero Luminoso e o MRTA e estabilizar a economia após a crise da hiperinflação produzida sob o primeiro governo de Alan García (1985-1990). De acordo com pesquisas recentes, 65% dos peruanos são favoráveis ao indulto a Fujimori. / AFP 

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