Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Milícias armadas blindam Maduro em meio à impopularidade

Chamados de 'coletivos', grupos originaram-se em organizações comunitárias pró-governo na época de Chávez

Patricia Torres e Nicholas Casey / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2017 | 18h34

CARACAS - Com jaquetas vermelhas e roupas negras, alguns de rosto coberto, eles chegaram como uma falange, roncando as motos e jogando gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Em seguida, de acordo com testemunhas, sacaram pistolas e atiraram. Alguém caiu. Carlos Moreno, de 17 anos, ficou prostrado no asfalto, com uma poça de sangue em volta da cabeça.

"Estava saindo massa cinzenta", lembra Carlos Julio Rojas, líder comunitário que testemunhou o tiroteio mortal na capital venezuelana, quarta-feira.

Os homens uniformizados que mataram Moreno não eram das forças de segurança, ainda segundo testemunhas: eram membros das milícias armadas que se tornaram um apoio decisivo para o presidente Nicolás Maduro em sua tentativa de esmagar os crescentes protestos contra seu governo.

Os grupos, chamados de "coletivos", originaram-se em organizações comunitárias pró-governo que há muito são parte do cenário político esquerdista venezuelano. Segundo especialistas que os estudaram, os coletivos são formados de civis armados pelo governo.

Os grupos controlam vastos territórios em toda a Venezuela, autofinanciando-se com extorsão, mercado negro de alimentos e participação no tráfico de drogas - sempre sob vista grossa do governo em troca de lealdade.

Agora, parecem dispostos a assumir um papel decisivo na repressão à dissidência.

Centenas de milhares de manifestantes vêm ocupando as ruas de Caracas e outras cidades, exigindo eleições. Protestando contra uma economia em ruínas e a falta de alimentos e remédios - além de uma fracassada tentativa esquerdista de dissolver o Congresso no mês passado -, eles se tornaram a maior ameaça ao grupo no poder desde que um golpe afastou brevemente da presidência o antecessor de Maduro, Hugo Chávez, em 2002.

Maduro responde às manifestações mobilizando a Guarda Nacional, armada com canhões d'água e balas de borracha, para dispersar a massa. Mas, ao lado das forças regulares, segundo observadores e testemunhas, estão os militantes dos coletivos, que se destacam por intimidar duramente, até mortalmente, os dissidentes.

"Esses são os verdadeiros grupos paramilitares da Venezuela", diz Roberto Briceño-León, diretor do Observatório da Violência Venezuelano, grupo civil que monitora o crime.

A ação dos coletivos não se limita à dissolução de manifestações nas ruas.

À medida que a queda dos preços do petróleo esvaziava os cofres venezuelanos, o governo se voltava cada vez mais para os coletivos como força de dissuasão. Hoje, de disputas com sindicatos trabalhistas a manifestações de universitários, seus militantes aparecem em qualquer situação em que a população "ameace sair da linha", dizem os venezuelanos.

Eladio Mata, líder sindical, diz que foi baleado no ano passado por membros de um coletivo quando suas negociações com o Hospital Universitário de Caracas empacaram. Segundo Mata, ele encontrou a porta do hospital bloqueada pelo coletivo, que havia sido chamado pela direção do hospital. Funcionários tentaram ajudá-lo a entrar, mas um membro do coletivo baleou-o nas costas. Ele foi submetido a uma cirurgia de emergência no próprio hospital. "A dissidência está proibida neste país", diz Mata.

Oscar Noya, pesquisador de doenças tropicais, afirma que seu laboratório foi atacado umas 30 vezes por membros dos coletivos, que destruíram equipamentos e roubaram cabos de eletricidade. Noya acredita que o vandalismo tenha ocorrido porque ele publicou informações sobre infecções epidêmicas que o governo não queria divulgar, particularmente sobre o crescimento da malária.

O médico diz que se queixou várias vezes às autoridades, mas a resposta foi o silêncio. Os coletivos, afirma, "gozam de total impunidade".

Estudiosos dizem que os coletivos vêm dos primeiros dias de Chávez no governo. Foram concebidos originalmente como organizações sociais destinadas a melhorar a vida nos subúrbios pobres da Venezuela, dentro da revolução socialista pretendida pelo presidente. Muitos coletivos têm nome, bandeira e uniforme. O governo às vezes lhes fornece armas e treinamento, fazendo deles milícias especiais.

À medida que ficavam mais fortes, os coletivos passaram a agir independentemente do governo, por exemplo, controlando o tráfico de drogas nos subúrbios de Caracas.

Seu poder tornou-se tão grande que alguns grupos chegaram a entrar em choque com a própria polícia, em 2014, ao tentarem defenestrar um ministro do Interior que tentou controlá-los. Mais recentemente, outros grupos trocaram tiros com soldados que participavam de uma operação militar para deter o crime organizado.

Hoje, os coletivos controlam 10% das vilas e cidades venezuelanas, calcula Fermín Mármol, criminologista da Universidade de Santa María, em Caracas. Segundo Mármol, a forte tendência esquerdista dos coletivos indica que eles defenderão Maduro a qualquer custo. "Se amanhã a revolução perder a presidência, os coletivos imediatamente passarão para a guerrilha urbana", diz o criminologista.

Os coletivos vêm sendo repetidamente acusados de atacar jornalistas que cobrem suas atividades nas ruas. Mas líderes dos grupos negaram, nas raras entrevistas que deram, que exerçam atividades criminosas. Afirmaram que apenas defendem causas esquerdistas.

Apesar dos ataques a dissidentes do regime, para muitos venezuelanos pobres os coletivos são um fator de ordem que começam a aceitar.

Na semana passada, no bairro operário de La Vega, sacudido por protestos, moradores viram quando um grupo que identificaram como membros de um coletivo local parou numa rotatória durante uma patrulha. Haide Lira, de 58 anos, assistente administrativa que mora nos limites do bairro, disse que o choque entre manifestantes e membros do coletivo assustou os moradores. A simpatia de Haide passou dos manifestantes para o coletivo. "Não se tira um governo desse jeito", afirmou, sobre os protestos. Quanto aos coletivos, para Haide "eles põem ordem onde existe desordem. É verdade que são civis armados, mas que se pode fazer neste nosso mundo de cabeça para baixo?".

Os ataques aos protestos, no entanto, vêm traumatizando muitos manifestantes em Caracas, como Carlos Julio Rojas, aquele que testemunhou a morte do adolescente Carlos Moreno.

Os manifestantes, disse ele, tentaram em vão salvar Moreno levando-o de motocicleta para o hospital, onde foi declarado morto. Alguns tentaram perseguir os agressores, mas foram contidos por outros que disseram que seria inútil.

Rojas, que trabalha com políticos da oposição, diz que já se acostumou com os ataques. "Nas filas de alimentos, eles atacam os vizinhos identificados como opositores; cobram pedágio de donos de lojas; tomam pães dos padeiros para vender no mercado negro", diz Rojas. "Não têm verdadeiramente uma atuação pela coletividade, nem são militantes políticos - são apenas criminosos."/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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