Moniz Bandeira adverte para riscos de ataques à Síria

Quando se entra em uma guerra, é impossível determinar quando ela irá terminar. A advertência foi feita por Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor titular aposentado de história da política exterior do Brasil no Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB), ao comentar a intenção declarada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de promover uma ação militar "limitada" e de curta duração contra o governo da Síria. Em entrevista à Agência Estado, Moniz Bandeira adverte para os riscos de desestabilização regional e global de uma campanha de bombardeios dos EUA contra a Síria. Ele afirmou ainda que a decisão do Parlamento britânico de desautorizar o envolvimento do país em uma eventual guerra é um sinal de que "a democracia agora funcionou" no Reino Unido. Moniz Bandeira também qualifica como "guerra psicológica" a afirmação norte-americana de que o aparente uso de armas químicas partiu do governo e diz não haver "a menor dúvida" de que esses ataques foram perpetrados pelos rebeldes que tentam derrubar o presidente Bashar Assad. Eis os principais trechos da entrevista.

RICARDO GOZZI, Agência Estado

30 Agosto 2013 | 18h57

Agência Estado - Na noite de quinta-feira, o Parlamento britânico votou contra a participação do Reino Unido em uma eventual intervenção externa na Síria e o primeiro-ministro David Cameron disse que respeitaria a decisão. Qual o efeito desse desdobramento sobre a iniciativa de ação militar empenhada pelos Estados Unidos?

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira - A democracia agora funcionou na Grã-Bretanha. A defecção do primeiro-ministro David Cameron refletiu o estado de ânimo do povo inglês, farto de guerras no Oriente Médio e da farsa montada pelo presidente George W. Bush e pelo primeiro-ministro Tony Blair, que o Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, continuou a desenvolver. Esperemos que François Hollande, presidente da França, lhe siga o exemplo. O secretário de Estado, John Kerry, disse que o uso de gás é "obscenidade moral". Os Estados Unidos provaram que Assad usou essa arma química? Não. E quem usou? Israel? Os insurgentes? E mesmo se provasse, que o governo de Assad cometesse essa estupidez, os Estados Unidos não têm mandato para ser polícia global ou para usar a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) como polícia global.

AE - É possível prever as consequências regionais e globais de uma eventual ofensiva contra a Síria? Existe um cenário mais provável do que outros?

Moniz Bandeira - O presidente Obama declarou que os ataques contra o regime do presidente Bashar Assad seriam cirúrgicos, "punitivos" e durariam um ou dois dias. É ridículo. O presidente Obama, Prêmio Nobel da Paz, não aprendeu nenhuma lição. Quando ele, em 2011, autorizou a guerra contra o governo do coronel Muamar Kadafi, efetuada pela Otan, o ex-presidente Bill Clinton disse que o Ocidente estava "atirando em uma incerteza". E tinha razão. Quando se entra numa guerra, nunca se sabe quando termina. As guerras no Afeganistão e no Iraque, iniciadas em 2001 e 2003, ainda continuam. Nos dois países, assim como na Líbia, os atentados, com dezenas e centenas de vítimas, sucedem-se todos os dias. E, na Síria, a derrubada do regime de Assad instauraria a democracia do caos e do terror, em que as facções sectárias, terroristas de toda a espécie, continuariam lutar entre si pela conquista do poder e instauração do Califado. E, certamente, os reflexos seriam a desestabilização da Turquia, da Jordânia, do Líbano e dos países do Golfo, onde as minorias xiitas, oprimidas, habitam exatamente as áreas produtoras de petróleo e, revoltadas como estão, contariam com o estímulo do Irã para insurgirem-se. Israel, apesar de seus mísseis Patriot e outros, sofreria também os terríveis efeitos da tempestade.

AE - Quais o senhor considera os objetivos estratégicos de uma intervenção militar dos EUA na Síria?

Moniz Bandeira - Os Estados Unidos, comprovadamente, estavam a financiar a oposição na Síria, pelo desde 2005, 2006, conforme documentos do Departamento de Estado. A intenção dos Estados Unidos, bem como das outras potências ocidentais, sempre foi desestabilizar e derrubar do regime de Bashar Assad. E os objetivos estratégicos - não apenas um - sempre foram assumir o controle das imensas reservas de óleo e gás existentes no litoral do Mediterrâneo, disputadas por Estados Unidos, União Europeia, Rússia e China, bem como assegurar a rota de abastecimento para o Ocidente, isolar politicamente o Irã, aliado da Síria, assim como quebrar o eixo entre o Irã, o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Palestina. A Rússia, desde 1971, opera os portos de Tartus e Latakia, na Síria, e projetava reformá-los e ampliá-los, como base naval, em 2012, a fim de receber grandes navios de guerra e garantir sua presença no Mediterrâneo. Consta que ela também planejava instalar bases navais na Líbia e no Iêmen.

AE - Qual seria o impacto econômico dessa intervenção em um momento no qual a economia global ainda ensaia uma recuperação da crise de 2008?

Moniz Bandeira - Se as consequências podem ser catastróficas no nível regional, também os efeitos serão globalmente desastrosos, a começar pelo preço do petróleo e a elevação do custo de vida, o agravamento da crise econômica. Muitos setores empresariais da Europa e dos Estados Unidos sempre desejaram a guerra para depois ganharem as concessões para a reconstrução e obter seus lucros. Porém, o cenário da Líbia, após a queda de Kadafi, não é muito favorável aos investimentos. Não há governo. O país está entregue às milícias terroristas, armadas pelos países do Ocidente e que hoje se espalham pela África do Norte, como no caso de Mali, e Síria, no Oriente Médio.

AE - Há quem compare a situação atual na Síria com a de Kosovo em 1999. É correto fazer esse tipo de comparação?

Moniz Bandeira - Kosovo tem certa importância geopolítica, mas não na dimensão estratégica da Síria, um país extremamente mais complexo, com várias etnias e seitas. E a situação mundial, atualmente, não é a mesma de 1999, quando os Estados Unidos estavam em seu momentum imperial, como potência solitária, após o desmoronamento da União Soviética, e a Rússia, sua sucessora, ainda sofria a profunda crise econômica e financeira que a abatera em 1997. Também o presidente da Rússia não é mais Boris Yeltsin, mas Vladimir Putin, que tratou de recuperá-la como grande potência, mostrando ser um grande estadista, inclusive ao dar asilo a Edward Snowden, que revelou a extensão da espionagem eletrônica dos Estados Unidos. E o próprio Putin já anunciou, nos últimos meses, que não permitirá que a Otan reproduza, na Síria, o que fez na Líbia. A Rússia pode não intervir militarmente, no caso de ataque da Otan, porém dispõe de muitos meios para respaldar o governo de Assad, cujo exército, embora desgastado por mais de dois anos de guerra, ainda constitui enorme força militar, ademais de reforços do Hezbollah.

AE - O que mudaria se os inspetores da ONU concluíssem, por exemplo, que no caso sírio as armas químicas foram usadas por rebeldes, ou então se o resultado da investigação for inconclusivo?

Moniz Bandeira - Já se sabe que os inspetores encontraram foguetes intactos no local, o que significa que não foram disparados, mas plantados para a filmagem. Não há a menor dúvida de que o uso de armas químicas partiu dos rebeldes. Goutha, um subúrbio de Damasco, não constitui alvo militar, muito menos crianças e civis. Porém servem como alvo para razão propagandística, guerra psicológica, a fim de justificar a intervenção dos Estados Unidos. E não é a primeira vez que terroristas e insurgentes o fazem, com a colaboração de cinegrafistas de estações de TV, entre as quais Al Arabiya e Al Jazeera -, desinformando e exagerando o número de mortos, para criar o clima contra a Síria no Conselho de Segurança da ONU e provocar uma intervenção do Ocidente. A ex-procuradora do Tribunal Penal Internacional, Carla del Ponte, integrante de missão da ONU enviada à Síria para investigar a acusação de armas químicas pelas tropas de Assad, revelou que as evidências encontradas eram no sentido de que foram os chamados rebeldes que empregaram gás sarin. O presidente Barack Obama, que há alguns meses havia estabelecido o emprego de armas químicas como "linha vermelha" para intervir na Síria, voltou agora a acusar o governo de Assad, antes de obter qualquer prova. Esse fato evidencia a operação de guerra psicológica, montada com o objetivo de atacar, em favor dos chamados rebeldes (milhares de jihadistas estrangeiros estão entre eles), as forças do governo que, desde junho, estavam a vencer em sucessivas batalhas, através do país, desde a reconquista de Qusayr.

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