MYANMAR-RAKHINE/EVENTS Handout via REUTERS
MYANMAR-RAKHINE/EVENTS Handout via REUTERS

Reportagem de jornalistas presos por Mianmar comprova execuções de muçulmanos

Mortes marcaram episódio da violência que assola o Estado de Rakhine, onde minoria rohingya acusa Exército de incêndios, estupros e assassinatos; Wa Lone e Kyaw Soe Oo, repórteres da 'Reuters', foram acusados de obter documentos secretos sobre o caso

O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2018 | 14h18
Atualizado 09 Fevereiro 2018 | 20h14

INN DIN, MIANMAR - Amarrados juntos, dez cativos da minoria rohingya viram seus vizinhos budistas cavarem uma vala. Pouco depois, na manhã do dia 2 de setembro, todos os 10 estavam mortos. Ao menos dois deles morreram decapitados por moradores budistas e os outros foram baleados por soldados, segundo alguns daqueles que abriram a vala.

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As mortes marcaram mais um episódio da violência que assola o Estado de Rakhine, no norte do país. Os rohingyas acusam o Exército de cometer incêndios criminosos, estupros e assassinatos.

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A reportagem da Reuters levou o governo americano a exigir uma investigação independente com a cooperação das autoridades birmaneses. “Assim como outros relatos anteriores de valas comuns, esta reportagem destaca a contínua e urgente necessidade de autoridades birmanesas cooperarem com uma investigação independente e crível sobre as acusações de atrocidades em Rakhine, no norte”, disse a porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Heather Nauert.

 “Tal investigação irá ajudar a fornecer uma imagem mais completa do que aconteceu, esclarecer as identidades das vítimas, identificar os responsáveis por abusos de direitos humanos e violações, e avançar esforços por justiça e responsabilidade”, disse.

As Nações Unidas descreveram nesta sexta-feira os detalhes da reportagem da Reuters como “alarmantes” e disseram que a reportagem mostrou a necessidade de uma “investigação completa e minuciosa” sobre a violência no Estado de Rakhine.

A ONU disse que o Exército pode ter cometido genocídio. Mianmar alega que sua “operação de libertação” é uma resposta legítima aos ataques de insurgentes.

Os rohingyas afirmam estar presentes em Rakhine há séculos, mas a maioria dos habitantes do país de maioria budista os considera imigrantes muçulmanos indesejáveis de Bangladesh. O Exército se refere aos membros da minoria como “bengalis” e a maior parte deles não tem cidadania.

Nos últimos anos, o governo confinou mais de 100 mil rohingyas em campos onde têm acesso limitado a alimentação, remédios e educação. Desde agosto, quase 690 mil deles fugiram de seus vilarejos e cruzaram a fronteira com Bangladesh.

A agência de notícias Reuters apurou o que aconteceu nos dias que antecederam o massacre em Inn Din, amparando-se pela primeira vez em entrevistas feitas com moradores budistas que confessaram ter incendiado casas de rohingyas, enterrado corpos e matado muçulmanos.

A reportagem também marca a primeira vez em que soldados e policiais paramilitares foram implicados por testemunhos de agentes de segurança. Três fotos flagraram momentos cruciais, da detenção de homens rohingyas por parte de soldados no início da noite de 1.º de setembro à sua execução pouco depois das 10h do dia seguinte.

A investigação da Reuters levou autoridades policiais a prenderem dois repórteres da agência, Wa Lone e Kyaw Soe Oo, no dia 12 de dezembro, por supostamente terem obtido documentos confidenciais relacionados a Rakhine.

No dia 10 de janeiro, os militares emitiram um comunicado que confirmou partes do que a Reuters estava se preparando para relatar, admitindo que 10 homens rohingyas foram massacrados em Inn Din. Mas a versão deles para o acontecimento é refutada em aspectos importantes por relatos fornecidos à agência de notícias por budistas de Rakhine e testemunhas rohingyas. / REUTERS

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