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Morre Laura Pollán, líder das dissidentes cubanas Damas de Branco

Efe

15 Outubro 2011 | 06h 09

Pollán foi um dos rostos mais conhecidos e respeitados da luta pacífica pela causa dos presos políticos cubanos

HAVANA - Laura Pollán, líder do grupo dissidente das Damas de Branco e um dos rostos mais conhecidos da causa pelos presos políticos cubanos, morreu na sexta-feira, 14, em Havana após uma semana em estado muito grave por causa de uma insuficiência respiratória e descompensação diabética.

Laura, de 63 anos, sofreu na tarde do dia 14 de outubro uma parada cardíaca que não conseguiu superar, depois de ter permanecido internada desde o dia 7 no hospital Calixto García da capital cubana.

Aparentemente, a dissidente cubana tinha contraído dengue de tipo quatro que se combinou com outro vírus identificado como sincitial respiratório, que ataca principalmente infantes, pessoas imunoinsuficientes e da terceira idade.

Seu quadro se complicou por causa do diabetes crônico que sofria há alguns anos.

Seu corpo está sendo velado em uma funerária de Havana e posteriormente será cremado. As cinzas de Laura descansarão em Manzanillo, a localidade cubana onde nasceu em 13 de fevereiro de 1948.

Membros da dissidência cubana se mostraram consternados pelo falecimento de Laura e destacaram seu papel na luta pela liberdade dos presos políticos cubanos.

"Esta luta vai continuar. Laura fisicamente não está conosco, mas espiritualmente sim", disse visivelmente emocionada Berta Soler, uma das Damas de Branco mais próximas a Laura e porta-voz do grupo.

"Consternação. Dor. Lágrimas", "Não para de chover, Havana molhada e triste" escreveu em sua conta do Twitter a famosa blogueira Yoani Sánchez.

O opositor e ativista de direitos humanos Elizardo Sánchez ressaltou a batalha impetuosa que Laura travou pela liberdade de seu marido, Héctor Maseda, apostando inclusive com sua própria saúde.

"Comprometeu sua saúde. Foi também vítima de maus-tratos físicos e psicológicos", disse Sánchez em alusão aos atos de castigo que Laura sofreu junto com suas companheiras por parte de grupos de seguidores do regime cubano, o último deles no dia 24 de abril.

Laura Pollán foi um dos rostos mais conhecidos e respeitados da luta pacífica pela causa dos presos políticos cubanos à frente de mulheres familiares dos 75 dissidentes presos na Primavera Negra de 2003.

Professora de literatura de ensino médio, era esposa de Héctor Maseda, jornalista independente condenado a 20 anos de prisão na onda repressiva provocada pela criação das Damas de Branco, integrado por familiares do chamado Grupo dos 75.

Laura foi uma das cofundadoras desse grupo feminino, um movimento singular de protesto pacífico na ilha que reivindicou a liberdade dos presos políticos com vigílias e manifestações por avenidas centrais de Havana.

A imagem das Damas de Branco sempre vestidas dessa cor como símbolo de paz e inocência de seus familiares, levando flores e formando com suas mãos o "L" de liberdade se tornou internacionalmente famosa e foram distintas com o Prêmio Sajarov do Parlamento europeu em 2005.

Laura e suas companheiras foram objeto de vários atos de repúdio, eufemismo com o qual se conhece na ilha o assédio e fustigação contra dissidentes por parte de grupos de seguidores do regime cubano.

Na primavera de 2010, em um ambiente marcado pela morte do preso político Orlando Zapata após uma longa greve de fome, estas fustigações foram intensificadas até o ponto de o cardeal Jaime Ortega, máxima autoridade católica na ilha, interceder por elas perante as autoridades cubanas.

Essa mediação culminou em uma inédita reunião entre Ortega e o presidente Raúl Castro em maio de 2010 que precedeu ao início das libertações dos presos políticos do Grupo dos 75.

A libertação de todos estes opositores terminou no começo de 2011: os últimos a sair de prisão foram os que se negavam a tal com a condição de se exilar na Espanha, entre eles Maseda, que foi libertado em fevereiro deste ano.

Após a libertação dos 75, as Damas de Branco continuaram com seus protestos pacíficos para defender o respeito aos direitos humanos e a libertação de todos os presos políticos da ilha.