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Morte de ditador norte-coreano eleva tensão e amplia incerteza na região

Cláudia Trevisan - Correspondente

19 Dezembro 2011 | 22h 57

Kim Jong-il morreu sábado e seu filho, Kim Jong-un, assume o poder nesta terça-feira

Kim Jong-un (e) é observado pelo pai, Kim Jong-il; pouco se sabe sobre o novo líder

A súbita morte do líder norte-coreano Kim Jong-il elevou a tensão no leste asiático e criou um clima de incerteza em relação ao futuro de um dos regimes mais fechados do mundo, cujo arsenal nuclear tem um potencial desestabilizador de alcance global.

A agência oficial de notícias divulgou nesta segunda que Kim morreu no sábado de ataque cardíaco, durante uma viagem de trem, em razão do excesso de trabalho "físico e mental". A partir de agora, a "revolução coreana" será comandada por Kim Jong-un, informou a agência. O governo decretou dez dias de luto e informou que Kim será enterrado no dia 28.

Imagens divulgadas pela rede estatal de TV mostravam centenas de norte-coreanos nas ruas de Pyongyang chorando histericamente pela morte do "Querido Líder", cuja saúde estava debilitada desde agosto de 2008, quando sofreu um derrame. O neurocirurgião francês, François-Xavier Roux, revelou nesta segunda à agência Associated Press que ele tratou secretamente de Kim em Pyongyang por dois meses quando o líder teve um derrame.

Com menos de 30 anos, o sucessor Kim Jong-un tem diante de si o desafio de alimentar a empobrecida população de 25 milhões de habitantes, conduzir negociações com os Estados Unidos em busca de um acordo de paz e gerenciar o relacionamento com a vizinha Coreia do Sul, com a qual, por falta de um acordo de paz formal, o país ainda está tecnicamente em guerra, desde 1950.

Acima de tudo, ele terá de consolidar sua posição como líder máximo de um país militarizado, que mantém a coesão interna graças à confrontação com o mundo exterior.

Kim Jong-un é o representante da terceira geração da dinastia criada em 1948 por seu avô, Kim Il-sung, o fundador da Coreia do Norte venerado como um semideus pela população. Enquanto Kim Jong-il teve uma década de preparação para assumir o lugar do pai, Kim Jong-un só foi apontado como sucessor em setembro de 2010 e é pouco conhecido até mesmo na Coreia do Norte.

Brian Myers, professor da universidade sul-coreana Dongseo, acredita que o regime foi lento no processo de "glorificação" do herdeiro, o que exigirá empenho redobrado do aparato de propaganda a partir de agora.

"O grande desafio será fazer esse jovem ser aceito pela população", observa Myers, que não espera nenhuma alteração relevante no modelo econômico, político ou militar norte-coreano.

Em sua opinião, eventuais reformas e o abandono da posição de confronto trazem o risco de colocar em xeque a própria existência da Coreia do Norte diante do vizinho capitalista do sul. "Eles estão imobilizados em uma armadilha ideológica."

Outro risco para o regime é o crescente acesso da população à informação sobre o estilo de vida no exterior, em especial na Coreia do Sul, graças à proliferação de celulares e DVDs.

O chinês Cheng Xiaohe, professor da Universidade do Povo, também acredita que a tarefa mais urgente do sucessor é estabelecer suas credenciais como líder supremo. "Kim Jong-un é muito jovem e desprovido de experiência política e até agora não teve chance de mostrar suas habilidades diante do público."

Segundo Cheng, a morte de Kim Jong-il causou nervosismo nos vizinhos da Coreia do Norte, incluindo a China, principal aliado e maior fonte de ajuda externa do regime. "Existe muita incerteza e a estabilização da situação doméstica é a prioridade."

A incógnita mais imediata diz respeito à negociação com os EUA em torno do abandono dos planos nucleares de Pyongyang. Os dois lados caminhavam para anunciar nesta semana em Pequim um acordo pelo qual os americanos doariam alimentos à Coreia do Norte em troca da suspensão de seu programa de enriquecimento de urânio.

A morte de Kim deve levar ao cancelamento da reunião. As interrogações que cercam o novo líder provocaram quedas nas bolsas da região. A Coreia do Sul pôs o Exército em alerta.

A relação entre os dois lados da península atingiram um dos piores momentos do pós-guerra no em 2010, quando Seul acusou Pyongyang de afundar o navio de guerra Cheonan, provocando a morte de 46 marinheiros.

Paik Hak-soon, diretor do Centro de Estudos da Coreia do Norte do Instituto Sejong, de Seul, acredita que Kim Jong-il criou mecanismos de proteção de seu herdeiro que permitiram o anúncio de seu nome como "grande sucessor" de seu pai.

Segundo Paik, Kim Jong-il reforçou o poder do Partido governante diante do poderoso Exército e criou uma rede de mentores para Kim Jong-un. O mais importante deles é Jang Song-thaek, casado com a irmã de Kim Jong-il e considerado por Paik a mais poderosa figura do sistema político norte-coreano.

A influência de Jang será contrabalançada por outros dois "mentores" que ocupam cargos de destaque no Exército e no Partido, disse Paik.

O analista sul-coreano acredita que o novo líder será beneficiado em sua tarefa de consolidação no poder pelo centenário de nascimento de seu avô, Kim Il-sung, com o qual exibe extrema semelhança física. As celebrações ocorrerão em abril e vão mobilizar a população do país.

Apesar das dúvidas que cercam o futuro da Coreia do Norte, os analistas concordam em um ponto: pouca coisa deverá mudar no próximo ano, quando Kim Jong-un estará voltado a consolidar seu poder, enquanto EUA e Coreia do Sul realizam eleições. Paik lembrou que o ex-presidente americano Bill Clinton enviou condolências à Coreia do Norte em 1994, quando Kim Il-sung morreu. "Seria positivo um gesto semelhante de Barack Obama agora, mas não creio que ele se repita", afirmou o sul-coreano.