REUTERS/Steve Bonet
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Morte de um sacerdote

Na hierarquia obscura do Estado Islâmico, a França ocupa o primeiro lugar

Gilles Lapouge *, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2016 | 05h00

Ontem, dois homens penetraram, no meio da missa, em uma igreja de uma pequena paróquia francesa perto de Rouen. Fizeram reféns alguns fiéis e o padre, um idoso de 84 anos. O padre foi degolado, um fiel cruelmente ferido. Os dois homens saem da igreja pela porta da frente. E são abatidos.

Na hierarquia obscura do EI, a França ocupa o primeiro lugar. E há uma explicação para isso. A degola foi da França e da religião cristã, o que, para o EI, é a mesma coisa. Não é por acaso, ou fútil, o fato de, nos comunicados exortando seus crimes, os jihadistas chamam constantemente os franceses de “cruzados”.

Remontamos portanto à Idade Média: entre os anos 1.100 e 1.300 quando a Europa, sobretudo a França, enviavam enormes Exércitos de cavaleiros e camponeses para capturar os “lugares sagrados” de Jerusalém dos árabes. Mil anos. Mas para essas mentes insanas, as Cruzadas ainda existem hoje. O tempo é imóvel. É ilusão.

Uma prova de que para a França, a guerra de religião que foram as Cruzadas, não terminou: Paris proibiu, por lei, o uso do véu pelas muçulmanas. Na verdade, para os muçulmanos fanáticos do Estado Islâmico, mesmo que a França seja o país mais “descristianizado” da Europa, ainda é a filha mais velha da Igreja, como sob o rei Luis XIII.

Os combatentes do EI acusam também o país de um pecado inverso: não ter religião. E para eles é preciso livrar a terra dos ímpios, como os agricultores devem erradicar os besouros e insetos daninhos da terra.

Aparentemente, trata-se de uma grande contradição. Aos olhos do Estado Islâmico o crime da França é ser cristã e não ser cristã. Impensável? Não. Esse veredicto paradoxal não é totalmente falso. É fato que os franceses são cada vez menos cristãos, mas ao mesmo tempo, e paradoxalmente, a sociedade francesa, sua filosofia, sua memória, sua moral, sua história, sua poesia, seu inconsciente, tudo é fundamentalmente, absolutamente, cristão.

Aliás, todas as decisões tomadas em Paris confirmam isso. Não é por acaso, diz o EI, que a França combateu a Al-Qaeda no Afeganistão, Sarkozy assumiu o comando da desastrosa cruzada contra a Líbia e hoje aviões franceses, ao lado dos americanos, bombardeiam posições do EI no Iraque e na Síria. 

O longo período da colonização também teve um papel importante. Quando o império colonial entrou em colapso, entre 1945 e 1965, numerosos habitantes de Argélia, Marrocos, Tunísia e África Central, emigraram para a França em busca de emprego, uma vez que falavam francês e estavam familiarizados com a cultura local.

Ora, a integração dessas minorias foi a pior possível. A França faltou espetacularmente a esse encontro extraordinário com a História. Áspera, irascível, indiferente, dogmática, legalista, aristocrata, nada fez para facilitar essa adaptação. 

Assim, as periferias francesas, como as belgas, tornaram-se incubadoras de jihadistas. São fabricados em série. E quando o EI se instalou no Iraque e na Síria, um bom número desses franceses desprezados voou para esses dois países. Com os revezes sofridos pelo EI, esses franceses receberam ordens de não viajar mais para a Síria e passarem a agir na França, em cidades e vilarejos dos cruzados. Ordem sórdida e, desgraçadamente, ouvida. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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