REUTERS / Andres Stapff
REUTERS / Andres Stapff

Mujica: um líder de hábitos simples e carismático

Para analistas, mesmo fora do mais alto cargo do Uruguai, Mujica continuará influente na política

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

01 Março 2015 | 03h00

José “Pepe” Mujica, o líder que conquistou os uruguaios com seu jeito simples e direto, se despede neste domingo, 1º, do cargo, mas não tem planos para sair de cena tão cedo. “A partir de 1.º de março, passaremos a ajudar o novo governo, o empurraremos com entusiasmo para alcançarmos as mudanças de que necessita nosso país. Vale a pena nos comprometermos com esse esforço”, escreveu Mujica no site que lançou dias antes de encerrar seu mandato: www.pepemujica.uy 

O cientista político do Instituto de Ciência Política da Universidade da República, de Montevidéu, Daniel Chasquetti, acredita que Mujica, que se elegeu senador, terá um papel crucial nos próximos cinco anos, ao lado da mulher e atual senadora Lucía Topolansky.

Segundo ele, o grau de harmonia na distribuição dos cargos no gabinete e na bancada legislativa da Frente Ampla é o menor desde 1985. “Há setores mais representados do que outros. Portanto, o gabinete estará ideologicamente posicionado mais à direita do que a bancada legislativa, onde estará o próprio Mujica”, disse. 

Esse cenário, segundo Chasquetti, poderá significar um problema se as iniciativas legislativas não se ajustarem às preferências do legislador mediano da Frente Ampla, que tem a maioria no Parlamento. 

“Não acredito que vá ser uma pedra no sapato do governo, mas será influente no processo legislativo. Ele exigirá que se leve em conta seus pontos de vista e o Poder Executivo não poderá enviar qualquer projeto e exigir disciplina. Haverá muita negociação”, reitera Chasquetti. 

O professor Francisco Panizza, especialista em América Latina da London School of Economics, prevê uma busca de equilíbrio entre esses dois líderes. Com um estilo muito diferente do de Mujica, Tabaré tende a dar autonomia a seus ministros no dia a dia, mas exercerá sua autoridade nas decisões mais importantes. Por outro lado, Pepe fará o contrapeso no Parlamento, já que controla quase a metade da bancada da Frente Ampla, como lembrou o professor. 

Ainda sobre estilos, os uruguaios notarão a diferença no Palácio Estévez. Também popular entre os uruguaios, Tabaré cuida muito bem de suas aparições públicas, calcula cada movimento político e não titubeia na hora de tomar decisões, ressaltou Chasquetti. Quando deixou o cargo, em 2010, Tabaré tinha ainda mais popularidade que seu colega - 78% diante dos 65% com os quais Pepe encerra seu mandato. 

No entanto, neste domingo, 1º, o Uruguai se despede do presidente de hábitos simples, que preferiu continuar morando em sua chácara, alternando os papéis de líder de um país e chacareiro. 

Prestes a completar 80 anos, será lembrado também por não abrir mão do Fusca 1987, nem mesmo diante de uma oferta de US$ 1 milhão, e por doar 90% de seu salário. “Como político, Tabaré é infinitamente mais eficiente que Mujica, mas não tem o seu encanto”, afirmou Chasquetti. 

Em entrevista ao Estado, no ano passado, o presidente Mujica rejeitou a ideia de que seu maior legado tenha sido leis como a legalização da maconha, do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para o ex-guerrilheiro, suas grandes realizações foram as conquistas sociais, a diminuição da pobreza e o aumento do trabalho no país.

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