Saudi Press Agency/Handout via REUTERS
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Na Arábia Saudita, golpe do príncipe Mohamed bin Salman

Mohamed bin Salman quer modernizar o reino saudita, mas suas decisões diplomáticas chocam

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris,, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2017 | 05h25

Em junho, o velho príncipe da Arábia Saudita, sentindo-se cansado, transferiu todos os poderes para seu filho Mohamed Bin Salman, que, ao contrário, não se sente nem um pouco fatigado. Tem apenas 32 anos. E se agita. Há poucos dias, na luxuosa capital saudita, Riad, onde proliferam os príncipes, Bin Salman ordenou a prisão de dezenas deles, como também de vários ministros, todos confinados no Palace Carlton Ritz. 

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Bin Salman deu início assim à modernização desse reino carcomido e grotesco na sua reverência ao passado. No meio do ano, as mulheres foram autorizadas a conduzir seu carro. Uma revolução! A religião também passa por um rejuvenescimento. Bin Salman a respeita, mas pretende deixar para trás as raízes “wahabitas” do regime. Sua ideia é fomentar um Islã moderado, aberto às outras religiões e sensível aos eflúvios do mundo. Hostil aos extremismos, ele declarou: “Destruiremos o modo de pensar dos extremistas”.

Outro desejo de modernidade: a economia prospera, mas é inerte, com base apenas nas receitas do petróleo. Ele deseja criar uma economia vibrante, arriscada, imaginativa. Substituir a economia de funcionários por uma de empresários.

Só podemos nos congratular com essa “retomada” da Arábia Saudita e sua revitalização cultural. Em compensação, quando nos interrogamos sobre as decisões diplomáticas do jovem Bin Salman, ficamos atônitos. O novo homem forte, neste domínio essencial e perigoso, reproduz as mesmas incongruências de seus predecessores.

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Exemplo: na semana passada o primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, foi chamado a Riad e, mais tarde, com voz débil, leu uma declaração absurda anunciando sua demissão do cargo e afirmando que retornará ao Líbano. Dez dias depois, Hariri continua em Riad. 

A informação é que ele está em liberdade, voltará a Beirute, mas os desmentidos e as promessas não convencem. Segundo especialistas, o premiê libanês é uma marionete do príncipe Salman. E, ao que parece, a “operação Hariri” seria uma nova máquina de guerra dirigida contra o inimigo da monarquia saudita: o Irã, que tem todos os defeitos, mas principalmente dois.

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Primeiro, é um país poderoso que desafia o domínio dos Saud sobre uma vasta região do Oriente Médio. Em segundo lugar, aos olhos sauditas, o Irã comete o pecado de não ser um país árabe, ser muçulmano xiita – e não sunita como a Península Arábica. Se o primeiro-ministro libanês foi sacrificado por Mohamed Bin Salman é porque governa o Líbano com apoio do Hezbollah libanês, milícia xiita amiga de Teerã.

Este não é o único deslize cometido em política externa pelo novo homem forte de Riad. Em julho, ele provocou a excomunhão do minúsculo e riquíssimo Catar. Formou uma aliança de monarquias árabes para estrangular o emirado, que incluiu um embargo que deveria ser letal para o reino. Foi um fracasso. O minúsculo Catar resistiu e convocou soldados turcos como reforço.

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A essa lista de horrores é preciso acrescentar outro, bem mais grave: Mohamed Bin Salman, quando foi ministro da Defesa, em 2015, iniciou a guerra do Iêmen (pequena faixa de terra ao sul da Península Arábica). Atacou as tribos dos houthis, que controlam Sanaa, a capital e a maior cidade do Iêmen, no norte do país. Os aviões sauditas bombardeiam a região violentamente. Matam. Mas os houthis, povo de montanha, resistem.

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Hoje, o pequeno país vem sendo esfolado vivo, desmembrado entre os houthis miseráveis e os suntuosos sauditas. Os massacres se sucedem, provocando uma catástrofe sanitária sem precedentes, acrescida há alguns meses de uma epidemia de cólera. 

A ação lançada contra o Iêmen pelo brilhante Bin Salman vem se somar aos erros cometidos. Ela se arrasta e faz levantar a opinião pública contra esse desastre. A ONU já denunciou o banho de sangue.

As potências árabes vacilam. A ideia da Arábia Saudita, no início, era constituir uma forte coalizão contra os rebeldes houthis. Foi um fracasso, sem dúvida, em razão do horror dos combates. Turquia, Argélia, Tunísia – e até mesmo o Paquistão – não embarcaram nessa aventura. Praticamente sozinho, o Egito, do marechal Abdel Fatah al-Sissi, participa da aliança desejada por Riad. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

 

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