Na Europa, países mantêm planos de novas sanções

Desconfiança de diplomatas europeus aumentou após declaração de iraniano, segundo a qual atividades de enriquecimento prosseguirão

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / MADRI

O acordo nuclear firmado ontem com o Irã não pôs fim às negociações para a aprovação de novas sanções ao país. Em Madri, o novo secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, deixou claro que a pressão sobre o Irã prosseguirá. "Temos de continuar a trabalhar em uma resolução de sanções." Já a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirmou que as negociações para a aprovação de novas sanções devem continuar "até que o Irã cumpra suas obrigações com a organização".

Logo após a assinatura do acordo nuclear em Teerã, o diretor da Agência Iraniana de Energia Atômica. Ali Akbar Salehi, disse que seu país continuará enriquecendo urânio para uso civil. "Não há nenhuma relação entre o acordo de troca e nossas atividades de enriquecimento."

A declaração foi suficiente para despertar suspeitas. Por meio de seu porta-voz, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, saudou o acordo intermediado por Brasil e Turquia como "encorajador", mas reforçou que o Irã precisa cumprir as determinações do Conselho de Segurança.

Na Rússia, o presidente Dmitri Medvedev reprovou a manutenção de um programa de enriquecimento de urânio pelo Irã. "As inquietudes da comunidade internacional persistem." Dentre as potências nucleares, a França adotou um discurso ambíguo. O chanceler Bernard Kouchner elogiou "a excelente missão" de paz do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, mas, em Paris, seu porta-voz Bernard Valero disse que a pressão por sanções continua.

Inconformado com a reação adversa ao acordo, o governo brasileiro partiu para a ofensiva. Em Madri, o assessor especial da presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, criticou o ceticismo internacional. "Essas pessoas só trabalham com a hipótese das sanções. O ceticismo é daqueles que não querem o acordo." Em tom mais diplomático, o chanceler Celso Amorim elogiou o pacto. "O Irã pôs no papel coisas que nunca tinha posto antes", disse. "Temos de dar um tempo para ver as coisas acontecerem."

Referindo-se à afirmação de um porta-voz iraniano de que Teerã continuará enriquecendo urânio a 20%, Amorim disse que a declaração "não foi um balde de água fria" e poderia estar destinada a acalmar os setores mais duros do Irã. "Na realidade, cada um tem seu público interno", disse Amorim em uma base aérea em Madri antes de partir para o Brasil.

POSIÇÕES DISTINTAS

EUA

Qualificam o acordo de "insuficiente" e insistem que nada mudou sobre processo de sanções

ONU

Diz que acordo é "alentador", mas conclama Irã a respeitar obrigações do TNP

AIEA

Pediu ao Irã que protocole o texto do acordo na agência para que seja analisado

União Europeia

Quer tempo para analisar o acordo

Rússia

Diz que acordo é "passo positivo", mas não descarta ainda hipótese de apoiar sanções

Israel

Funcionário acusa Irã de "manipular" Brasil e Turquia

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