Nacionalismo catalão

Ele cresceu na Catalunha porque foi prometido desde a escola por governos locais

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2017 | 03h00

Apenas de maneira fugaz e conjuntural o nacionalismo é uma ideologia progressista. Ele cria raízes em países colonizados por uma potência imperialista que explora e discrimina os nativos, e os anima a defender sua língua, seus usos, costumes e crenças, imbuídos de uma “consciência nacional”. Este tipo de nacionalismo foi desaparecendo com a descolonização e se transformando na ideologia ultrarreacionária com que ditadores sanguinários como Mobutu, no ex-Congo Belga (hoje República Democrática do Congo), e Robert Mugabe, na ex-colônia britânica do Zimbábue, se eternizaram no poder, saquearam seus países e os banharam de sangue e de cadáveres.

Todas as ditaduras na América Latina, tanto de esquerda como as de Fidel Castro, Hugo Chávez e Velasco Alvarado, como de direita como as de Pinochet, Aramburu e Fujimori, procuraram se justificar com argumentos nacionalistas. E, mais grave, conseguiram muitas vezes seduzir, com um nacionalismo circense e sentimental, a bandeira, o hino e discursos, setores importantes da sociedade. Isso explica o inexplicável: o fato de tantos tiranos desprezíveis e cleptomaníacos serem “populares”. O nacionalismo é uma perversão ideológica e muito generalizada porque recorre a instintos profundamente arraigados nos seres humanos, como o temor do diferente e do novo, o medo e o ódio do outro, daquele que venera outros deuses, fala outra língua e pratica outros costumes, instintos que entram em conflito com a civilização. Por isso, hoje, o nacionalismo é somente uma ideologia reacionária, anti-histórica, racista, inimiga do progresso, da democracia e da liberdade.

Por sorte restam poucas colônias no mundo e certamente a Catalunha, onde o vírus nacionalista se impregnou com força, jamais foi uma colônia. Mas não importa. O nacionalismo é uma ficção ideológica e como tal pode se permitir todas as tergiversações históricas necessárias. Por isso, embora seja talvez a região mais culta da Espanha, há inúmeros catalães convencidos desta grotesca falsidade: de que a Catalunha foi conquistada, ocupada e explorada pela Espanha, do mesmo modo que a Argélia pela França, a América Latina por Espanha e Portugal, e meia África pelo Reino Unido. A verdade é muito diferente. Mas a quem interessa a verdade quando se trata de vencer uma eleição?

Se alguém perguntar a um nacionalista catalão como foi possível uma “colônia” chegar a ser, várias vezes em sua história moderna, a capital industrial e cultural da Espanha, a locomotiva da sua modernização, ele responderá sem dúvida que isso se deve ao espírito de trabalho e à capacidade superior dos catalães frente aos outros espanhóis. O que significa que, uma vez independentes, os catalães – esse povo superior? – alcançaria e superaria a Alemanha.

O nacionalismo cresceu na Catalunha porque foi promovido desde a escola por governos locais que tinham um plano muito bem orquestrado que colocaram em prática de maneira sistemática, e porque os governos espanhóis e os cidadãos do restante da península se desinteressaram do problema e acabaram por respaldar a maioria dos catalães que queriam permanecer espanhóis, uma maioria que foi diminuindo em razão do desamparo e do isolamento, menosprezada pelo restante da Espanha.

Cayetana Álvarez de Toledo explicou isso há alguns dias, no Ateneo de Madri, ao receber o Prêmio Sociedade Civil da entidade Civismo (que atua para o fomento da sociedade civil e o exercício das liberdades pessoais e econômicas). Seu discurso foi uma reflexão sobre a responsabilidade de todos os espanhóis, diante do seu desinteresse e apatia, pela tragédia que vive a Catalunha.

Tragédia é de fato a palavra que convém a uma região que, desde o referendo ilegal convocado pela Generalitat, perdeu mais de 3 mil empresas, seu comércio e turismo diminuiu e o desemprego aumentou. Além disso, pela primeira vez desde a transição da ditadura de Franco para a democracia, é cenário de uma violência política que parecia erradicada da Espanha moderna. O fato de, nestas condições, existir ainda um número potencial de eleitores para trazer de volta ao governo a mesma equipe que hoje está na prisão ou foragida, como sugerem algumas pesquisas, é algo incompreensível para muitos cidadãos sensatos, que se perguntam se um surto de masoquismo não terá tomado conta do eleitorado catalão.

O problema é que eles tentam entender racionalmente o problema do nacionalismo na Catalunha. Os princípios da lógica e o conhecimento racional não servem para entendermos o nacionalismo, como não servem para explicar as crenças religiosas ou o misticismo. Trata-se de um ato de fé contra o qual todos os argumentos desmoronam. Quando os instintos substituem as ideias tudo fica muito confuso e os melhores esforços fracassam.

Gostaria, neste aspecto, de mencionar o pequeno livro que acaba de ser lançado, de autoria de Eduardo Mendoza: O Que Está Ocorrendo na Catalunha. Como tudo o que escreve, é um ensaio claro, inteligente e com análises sutis e inovadoras. Mas o tom amargo e pessimista de suas últimas frases contrasta com as ideias ricas e serenas do início do livro. Mendoza não parece ver nenhuma saída numa situação em que os independentistas e seus adversários chegaram, diríamos, a um empate técnico. Mendoza não é independentista, afirma. “Não existe razão prática que justifique o desejo de uma independência da Espanha” – mas estabelece uma equivalência entre os contrários, já que não aprecia nenhum dos os dois (tanto os independentistas como os anti-independentistas).

Para que escreveu o livro, então? “Para tentar compreender o que vem ocorrendo”. A ideia é válida, mas conseguiu? Temo que não. Suas observações são originais, embora nem sempre convincentes. Por exemplo, define o catalão de maneira sugestiva, mas, em minha opinião, insuficiente pela simples razão de que as psicologias nacionais não existem, ou há tantas exceções que acabam sendo pouco realistas. Eu, por exemplo, que conheço muitos catalães, não acho que há dois deles que se pareçam entre si.

A um ato de fé, como o nacionalismo, é preciso responder com outro ato de fé. Se você acredita na liberdade, na democracia, na civilização, não pode ser nacionalista. O nacionalismo está em conflito com todas as instituições e categorias que nos tiraram da tribo, do garrote e da selvageria e nos inculcaram o respeito ao outro, ensinando-nos a conviver com quem é diferente e que acredita em coisas diferentes daquelas que acreditamos, e nos fizeram entender que viver na legalidade, na diversidade e liberdade é melhor do que na barbárie e na anarquia. Somos indivíduos com direitos e deveres, não partes de uma tribo, pois ser parte de uma tribo, ser apenas um apêndice dela, é incompatível com o ser livre. Essa descoberta foi a melhor coisa para a espécie humana. Por isso temos de nos opor, sem complexos de inferioridade, com razões e ideias, e também com convicções e crenças, àqueles que queriam um retorno a essa tribo feliz que inventamos, pois ela jamais existiu.

/TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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