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Michael B. Thomas|AFP

ENTREVISTA: Geoffrey Kabaservice, consultor do partido republicano

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‘Não conter radicais foi o grande erro republicano’

Para especialista, sigla cometeu equívoco ao supor que poderia frear influência de populistas à sua direita

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Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON

01 Março 2016 | 08h44

O comando do Partido Republicano errou ao não conter vozes radicais de direita que prepararam terreno para o fenômeno Donald Trump, avalia Geoffrey Kabaservice, consultor do partido e autor do livro Rule and Ruin (Governar e Arruinar), no qual descreve a perda de espaço dos moderados dentro da legenda. “A retórica é semelhante à de um caudilho, no tom, na postura, na ausência de detalhes sobre propostas, na crença de que só ter uma pessoa forte no comando do governo resolverá tudo”, disse Kabaservice ao Estado. A seguir, trechos da entrevista.

 

 

O Partido Republicano está em crise ou enfrenta apenas uma disputa de facções?

Na maior parte da história do partido houve uma luta entre as facções moderada e conservadora, mas o grupo moderado praticamente desapareceu. O problema do partido é que muito do trabalho de educação do eleitor foi delegado a animadores, como apresentadores de rádio e a Fox News. Eles têm enorme influência e são muito irresponsáveis. Eles se dedicam a aprofundar divisões, a apresentar os democratas não só como oponentes do Partido Republicano, mas como traidores. A ideia de que (Barack) Obama não é americano, de que é um muçulmano nascido no Quênia, vem dessa esfera. O Partido Republicano não fez muito para contê-los e esse foi o grande erro do establishment. Eles acreditavam que não tinham inimigos à sua direita, que eles podiam controlar esse populismo.

 

Donald Trump é a ameaça que veio da direita?

Não é só Donald Trump e talvez não apenas Ted Cruz. Marco Rubio é tão conservador quanto Cruz. Ele só tem um rosto mais atraente e não é tão abertamente contra o governo. O erro do establishment foi não fazer o que Ronald Reagan fez e tentar manter o Partido Republicano como uma grande tenda. Eles não tentaram preservar espaço para os moderados. A autópsia da derrota das eleições de 2012 defendeu um partido mais aberto, abrangente, mas o establishment não fez nada para conter grupos externos (à direita) ou os animadores conservadores. Cruz e Trump levaram essa tendência a seu extremo lógico. Donald Trump está se aproveitando do que já existia. Ele não tornou as pessoas cínicas em relação ao governo. Elas já eram cínicas. Só estavam esperando pelo homem no cavalo branco. Havia muitos elementos nessa cultura contra a hierarquia, contra a tradição, contra as instituições e Trump está se aproveitando disso.

Mas ele tem um discurso autoritário e paternalista. Não é uma contradição?

O interessante em relação a Trump é que ele não é o candidato mais conservador na disputa. Em alguns aspectos, ele é heterodoxo e toma posições que um republicano típico não tomaria. Trump não é um republicano, ele é um populista. E sua retórica é semelhante à de um caudilho, no tom, na postura, na ausência de detalhes sobre propostas, na crença de que só ter uma pessoa forte no comando do governo resolverá tudo. Muitas pessoas nos EUA têm dificuldade em lidar com isso, porque é muito pouco familiar para nós.

A que se atribui o seu sucesso na campanha?

Eu questionaria essa premissa. Há poucos membros do Congresso ou ocupantes de cargos públicos que declararam apoio a ele.

Mas ele tem votos.

Eles são necessariamente republicanos? O que ele parece estar fazendo é atrair pessoas que se desencantaram com o sistema político. Talvez elas não estejam dispostas a votar em nenhum outro candidato republicano e não parecem ter interesse no Partido Republicano em si. Muitos membros do Congresso temem que o estilo de Trump afete a marca republicana e prejudique a tentativa de ampliar o apelo do partido.

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