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Não há nada a ser comemorado no Zimbábue

Com a saída de Mugabe, o novo ditador se empenhará em demonstrar que é mais à prova de golpes, o que pode significar mais repressão

Leonid Bershdsky / BLOOMBERG, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2017 | 05h00

Como líder do Zimbábue, Robert Mugabe ficou mais tempo no poder do que Stalin, na URSS, e Mao, na China. Se é chegada a hora de seu fim político – o que parece provável –, é também o momento de refletir sobre os erros que levaram a esse desfecho. 

Daniel Treisman, cientista político da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, afirmou num artigo recente que a maioria dos ditadores cai por tomar atitudes demasiadamente humanas: arrogância em excesso, propensão a assumir riscos desnecessários, impulsos liberalizantes que levam a um terreno inseguro, escolha errada do sucessor, violência contraproducente. Mugabe não é exceção. Ele escolheu a pessoa errada para suceder-lhe e confiou demais em seus militares. Quando tentou recuar da escolha, os generais decidiram que já haviam tolerado o suficiente. 

Durante quase todo o governo de 37 anos de Mugabe, Emmerson Mnangagwa – como ele, veterano da guerra pela independência do Zimbábue – foi o principal aliado e assessor do ditador. Primeiro a ocupar no país o cargo de ministro da Segurança, Mnangagwa chefiou as forças especiais que esmagaram a resistência tribal ao partido de Mugabe.

Entre outras arbitrariedades, essas forças obrigavam moradores de povoados a dançar sobre sepulturas de parentes rebelados cantando slogans pró-Mugabe. Quem conta é Heidi Holland em Jantar com Mugabe, um relato da transformação de um ícone da libertação nacional em autocrata.

+ Mugabe: de herói nacional a déspota disposto a matar pelo poder

No final dos anos 90, quando o Zimbábue interveio na 2.ª Guerra da República Democrática do Congo, alinhando-se com o governo, Mnangagwa estabeleceu fortes laços com os militares do país, ajudando-os a conseguir concessões de mineração em troca de apoio ao presidente Laurent Kabila. 

A ambição política de Mnangagwa cresceu até que Mugabe decidiu cortar seu avanço, em 2005. Ele foi destituído de seu alto cargo no partido governista União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu-PF) após tentar assumir a vice-presidência do país. Mas Mnangagwa sobreviveu ao rebaixamento e acabou se tornando vice-presidente em 2014. Então, ficou claro que, apesar de sua pouca aptidão política – fora derrotado em duas eleições no próprio distrito eleitoral –, Mugabe o via como potencial sucessor.

Enquanto Mnangagwa demonstrava seu poder de sobrevivência, forjando alianças e acumulando favores em vários setores do establishment, Mugabe se tornava cada vez mais dependente dos militares. Charles Mangongera, pesquisador zimbabuano, disse num artigo em 2014: “À medida que o domínio autoritário do presidente sobre o Estado diminuía com a crescente oposição, crescia o envolvimento dos militares com a política. A elite militar havia ganhado poder de veto institucional e impedia a transição do país para a democracia controlando instituições estatais estratégicas e usando a violência legalizada contra os adversários de Mugabe. Essa elite militar recebia em retorno lucrativos contratos com o governo, acesso às melhores terras, concessões de mineração e outros privilégios concedidos pelo Estado predador presidido pelo regime de Mugabe”. 

As Forças de Defesa do Zimbábue (FDZ) não são do tipo de militarismo que, em momentos críticos, se levanta para garantir a normalidade e adere às tradições de governança. As FDZ são inextricavelmente ligadas ao Zanu-PF, mas não necessariamente a Mugabe. Com o idoso ditador cada vez mais fragilizado, o comandante das FDZ, Constantine Chiwenga, foi se aproximando mais e mais de Mnangagwa. 

Quando Mugabe demitiu Mnangagwa, no início do mês, acusando-o de deslealdade, e ficou claro que o ditador queria promover sua mulher, Grace, a vice-presidente e fazer dela sua sucessora, Chimenga fez sua escolha. Prometeu barrar aqueles “empenhados em sequestrar a revolução”. A ocupação militar de Harare ocorreu no dia seguinte.

O país tem pouco a comemorar. Grace, provavelmente, não seria uma grande presidente. Mnangagwa, de 75 anos, dificilmente pode ser considerado um avanço nesse sentido. Observadores o descrevem como cruel e traiçoeiro. 

Vivendo sob o trauma da violência e da incerteza econômica no regime de Mugabe, o Zimbábue não tem muito a esperar da intervenção militar. Mudanças desse tipo, nascidas mais de intrigas palacianas do que da resistência popular, tendem a deixar as coisas como estão, quando não a piorá-las. O novo ditador se empenhará em demonstrar que é mais à prova de golpes que o predecessor, o que pode significar mais repressão. 

Mas, para autocratas de todo o mundo, o que ocorreu no Zimbábue pode ser uma útil lição. Golpistas ávidos por tomar o poder não gostam de esperar sentados que o ditador morra. Se o autocrata se tornar muito amigo de generais poderosos, seus dias de poder estarão contados. Além disso, ele não pode mudar de ideia sobre a sucessão. 

Mao e Stalin só morreram no cargo porque nunca deram trégua ao aparelho de segurança e à cúpula política. Mugabe, por sua negligência, nunca estará nesse time de ditadores que ficaram no comando até o fim. Após quase quatro décadas de poder, ele se tornou apenas humano. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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