AFP / AHMAD GHARABLI
AFP / AHMAD GHARABLI

Não havia processo de paz para ser destruído

A causa palestina está cada vez mais debilitada e o mundo árabe agora tem outras prioridades para se preocupar

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2017 | 05h00

Meus colegas Anne Barnard, Ben Hubbard e Declan Walsh captaram muito bem a reação palestina e árabe ao reconhecimento oficial de Donald Trump de Jerusalém como capital de Israel. “Uma explosão de violência ainda virá, mas, até agora, só percebemos uma explosão de lamentos.”

Jerusalém, cidade de paixões, sempre foi um barril de pólvora. A Segunda Intifada começou em 2000, quando Ariel Sharon, numa atitude provocadora, visitou o Monte do Templo, chamado pelos muçulmanos de Nobre Santuário. Mas isso foi há 17 anos, quando o choque entre israelenses e palestinos estava no cerne do conflito que tomava conta do Oriente Médio e o apoio árabe à causa palestina era mais do que apenas retórica.

Ismail Haniyeh, líder do Hamas, convoca agora uma terceira intifada. Mas se defronta com o cansaço, o cinismo e uma mudança de prioridades no mundo árabe. O anúncio feito por Trump não destruiu o “processo de paz”. Não há nenhum processo de paz a ser destruído.

Agora, o inimigo xiita é mais ameaçador do que a causa palestina para muitos Estados árabes sunitas. Todos sabem quanta legitimidade democrática Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, tem: nenhuma. A causa palestina, corroída pela desunião e por uma cultura de vitimização, está cada vez mais debilitada. A indignação internacional não muda isso. 

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O anúncio tem o mérito, como o presidente observou, de reconhecer uma realidade, e essa realidade reflete talvez os sentimentos mais profundos dos judeus. Uma real frustração exigiria que se tivesse a crença de que o status inconclusivo de Jerusalém poderia ser usado como moeda de troca para uma solução final em um processo de paz e faria uma diferença determinante nesse processo. 

Mas, como observei acima, não existe nenhum processo de paz. Se esse “processo” existiu, foi apenas usado como uma camuflagem ideal para o aumento constante do número de colonos israelenses (hoje, são mais de 600 mil), favorecidos pelo governo de direita do premiê Binyamin Netanyahu.

Alguns dirão que Trump arruinou qualquer noção que ainda poderia existir de que os EUA sejam um mediador honesto entre Israel e os palestinos. Não conheço ninguém que acredite nisso: os EUA apoiam e favorecem Israel frente aos palestinos por várias razões de política interna, estratégicas e sentimentais.

Bem, Trump provocou a ira inabalável dos palestinos e destruiu qualquer chance de paz. Mas não há nada inabalável com relação à política palestina, além de muita retórica e ineficácia em termos de ação, refletindo sua impotência. Abbas acabará cedendo se, em algum momento, uma oferta lhe for feita. 

Trump arruinou a credibilidade internacional e a capacidade de liderança dos EUA. Lamento, ele já fez isso muitas vezes. O poder internacional americano se esgotou. O presidente rompeu com todas as grandes potências. Na verdade, juntou-se ao presidente Vladimir Putin. 

No início do ano, o governo russo declarou: “Consideramos Jerusalém Ocidental a capital de Israel”. No entanto, a declaração de Moscou foi mais equilibrada: “Reafirmamos nosso compromisso com os princípios aprovados pela ONU de um acordo entre israelenses e palestinos que deve incluir o estatuto de Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado Palestino”.

Claro que Israel reivindica Jerusalém inteira como sua capital (incluindo a parte oriental, onde vivem mais de 200 mil colonos). Os palestinos não aceitarão um plano de paz em que uma parte de Jerusalém não integre sua capital. Trump declarou que o seu anúncio não pressupôs “os limites específicos da soberania israelense em Jerusalém”, mas seu aspecto mais nocivo foi dar um apoio robusto implícito ao direito de Israel, sem fazer menção a nenhum direito da Palestina. 

Além disso, ele colocou a vida dos americanos em perigo e aviltou o povo palestino, cuja vida sob uma ocupação que dura 50 anos é um exercício diário de humilhação. Trump também desconsiderou as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, desautorizando a lei internacional. O gesto de Trump foi absurdo e imprudente. Mas o que há de novo nisso?

O genro do presidente, Jared Kushner, deve agora formular seu plano de paz. Pobre, débil e lânguido Jared! Ele tentará conseguir que seus amigos sauditas façam agrados aos palestinos e a Israel. Mas não mais do que isso. E não vai funcionar. O projeto do Grande Israel já foi longe demais para se chegar a um “acordo final”.

Desde o assassinato de Yitzhak Rabin, há 22 anos, num momento que a paz era possível, os ideólogos religiosos etnonacionalistas que acreditam que toda a terra entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo pertence a Israel, segundo a Bíblia (e não importa quem viva ali hoje), estão com a faca na mão, com a cumplicidade de Netanyahu. Um assassinato bem-sucedido.

São esses os fatos. O comunicado de Trump não vai mudá-los. O anúncio foi dirigido amplamente a um público doméstico de evangélicos e grupos de judeus americanos. Trump afirmou que esse foi “um passo há muito tempo esperado para o processo de paz avançar”. Um absurdo. Lamente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

 

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