EFE/Angelo Carconi
EFE/Angelo Carconi

Renzi anuncia renúncia após população rejeitar reforma da Constituição

Primeiro-ministro prometera deixar o cargo em caso de derrota, que fortalece partidos de extrema direita contrários à União Europeia

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 20h15
Atualizado 04 Dezembro 2016 | 21h32

ROMA - O primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, renunciou ao cargo após pesquisas de boca de urna divulgadas no final da noite deste domingo, 4, na Itália indicarem que a população rejeitaria a proposta de reforma da Constituição apreciada em um referendo realizado ontem. Segundo os prognósticos, o “não” venceria com entre 54% e 58% dos votos, contra 42% a 46% do “sim”. "Meu governo termina hoje", afirmou Renzi após a divulgação dos primeiros resultados.  

O veredicto veio após uma campanha que opôs reformistas contra líderes populistas, extremistas de direita, radicais de esquerda e uma parte da intelectualidade italiana. 

A reforma constitucional, um tema altamente técnico, dividiu até mesmo constitucionalistas e cientistas políticos italianos. O texto previa entre outras medidas a reestruturação do Senado, que passaria de 315 a 100 senadores, e cujo perfil passaria a ser de representação regional, sem direito a derrubar o premiê. Além disso, a eleição do presidente da República pelo Parlamento seria simplificada. O espírito geral da reforma era redistribuir parte das atribuições do Estado, transferindo novas responsabilidades dos governos regionais a Roma, o que reforçaria os poderes do chefe de governo.

Esse ponto foi um dos que mais mobilizou a oposição de intelectuais italianos, preocupados com a possibilidade de que um governo extremista vencesse eleições futuras e tivesse poderes excessivos. Por outro lado, os próprios populistas e extremistas de direita haviam feito campanha pelo “não”, com o objetivo de minar o futuro político de Matteo Renzi.

Ao longo de uma campanha violenta, a opinião pública se mobilizou e fez com que o referendo constitucional se transformasse em um plebiscito informal sobre o governo de Renzi. Neste domingo, às 20h (horário de Brasília), quando as urnas ainda estavam abertas, o Ministério do Interior contabilizava uma alta participação, de 57,2% em média no país que conta com 46 milhões de eleitores.

A maior mobilização ocorreu em Veneza, onde 67,86% dos eleitores foram às urnas, à frente de Florença, com 67,45%. Em Roma, a participação ficou próxima da média, de 56,86%. 

Ao longo do domingo, o populista Beppe Grillo, líder do Movimento 5 Estrelas (M5S), e Matteo Salvini, chefe do partido de extrema direita Liga Norte, provocaram polêmica ao denunciar supostas fraudes em razão de um lápis especial disponibilizado nas seções eleitorais. Segundo Salvini, a opção do eleitor poderia ser apagada e alterada. “Começam a chegar relatórios de lápis que podem ser apagados com uma simples borracha”, advertiu o extremista em entrevista. 

As denúncias de fraude só aumentaram a tensão eleitoral que cercou o referendo nos últimos dias. Na sexta-feira, Beppe Grillo exortou os italianos a votarem “com as tripas” no que ele chamou de defesa “de suas liberdades e de sua independência”. O objetivo do M5S é forçar eleições antecipadas caso a vitória do “não” se confirme, uma hipótese que se reforçaria caso Renzi confirme sua intenção de se demitir do cargo, assumindo a responsabilidade pela derrota. 

Para o cientista político Luigi Buonanato, da Universidade de Turim, a hipótese de que Renzi deixe a chefia de governo é pequena, mas seu futuro político pode ter sido comprometido caso a derrota nas urnas de fato se confirme. “Renzi acabará permanecendo primeiro-ministro qualquer que seja o resultado. Mas sua corrida à glória nas eleições de 2018 não vai acontecer”, disse. Analistas acreditam que o presidente do país, Sergio Mattarella, não dissolverá o Parlamento do país e não convocará eleições. 

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