Evan Vucci / AP Photo
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Negócios da filha de Trump crescem no exterior após eleição do magnata

Durante visita do presidente chinês aos EUA, empresa de Ivanka conseguiu autorização provisória para registrar novas marcas na segunda maior economia do mundo

O Estado de S.Paulo

19 Abril 2017 | 00h06

XANGAI - Desde que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, a empresa de moda de Ivanka Trump, filha dele, continuou olhando para o exterior, as vendas cresceram e a empresa registrou pelo menos nove novas marcas nas Filipinas, Porto Rico, Canadá e EUA. No dia 6 de abril, a empresa conquistou autorização provisória do governo chinês para três novas marcas, dando a ela o monopólio para vender joias, bolsas e serviços de spa do seu negócio na segunda maior economia do mundo.

Na noite daquele dia, Ivanka e o marido, Jared Kushner, sentaram-se perto do presidente da China, Xi Jinping, e da esposa dele em um jantar em Mar-a-Lago durante a visita do líder chinês aos EUA. O cenário acentua quão difícil é para a filha do presidente, que tem tentado manter distância da marca que leva seu nome, separar negócio de política em seu novo trabalho como conselheira da Casa Branca.

Enquanto ela leva uma carreira política em seu escritório na ala oeste, a marca está florescendo apesar dos boicotes e restrições de várias lojas para vender seus produtos. As vendas atingiram níveis recordes em 2017. As importações da marca, quase todas vindas da China, aumentaram numa estimativa de 166% no ano passado. Ela lançou novas linhas de joias e está trabalhando para expandir sua propriedade intelectual global.

O lado comercial da Casa Branca de Trump é inédito na política norte-americana moderna, segundo advogados de ética. Eles criaram um cenário desconhecido com armadilhas éticas e forçam consumidores e varejistas a lutar contra questões improváveis, agora inspiradas na coleção da marca Ivanka Trump.

Usar o prestígio do serviço governamental para construir uma marca não é ilegal. Mas a lei criminal do conflito de interesses proíbe as autoridades federais, como Ivanka Trump e seu marido, de participar de assuntos governamentais que possam afetar seus próprios interesses financeiros.

Alguns argumentam que, quanto mais os negócios ampliam, mais ameaçada fica a capacidade dos dois de oferecer conselhos confiáveis ao presidente sobre questões fundamentais como comércio, propriedade intelectual e valor da moeda chinesa.

"Coloque o negócio de lado e pare de tentar obter marcas registradas enquanto estiver no governo", aconselha Richard Painter, que serviu como advogado de ética da Casa Branca durante o governo de George W. Bush.

Para lidar com questões éticas, Ivanka Trump transferiu os ativos da marca para um fundo familiar de confiança avaliado em mais de US$ 50 milhões e se comprometeu a não se envolver em questões que gerem conflitos de interesse. Ela também não está mais realizando seu negócio de design e deu a responsabilidade do dia a dia para Abigail Klem, presidente da marca.

Enquanto isso, Jared Kushner tomou medidas para se distanciar de seu negócio imobiliário em Nova York, alienando alguns de seus interesses comerciais, incluindo sua participação em um grande arranha-céu da Quinta Avenida. "A Ivanka não vai influenciar na estratégia de negócios, questões de marketing ou nos termos comerciais", disse seu advogado, Jamie Gorelick, em um comunicado.

Em entrevista recente à CBS News, Ivanka argumentou que seu negócio estaria indo ainda melhor se ela não tivesse se mudado para Washington e imposto restrições ao seu time para garantir que “qualquer crescimento seja feito com extrema cautela”.

Mas a China continua sendo uma preocupação. "Ivanka tem laços e conflitos com a China, mas ela e Jared parecem estar profundamente envolvidos nos contatos e na política chinesas. Eu nunca teria permitido isso", disse Norman Eisen, que serviu como advogado chefe de ética da Casa Branca durante o governo de Barack Obama. "Por sua própria causa, e do país, Ivanka e Jared devem considerar ficar longe de questões da China.”

Em vez disso, a filha do presidente e o marido surgiram como interlocutores proeminentes com a China, em que ambos têm significativas conexões de negócio. No ano passado, Kushner buscou centenas de milhões de dólares em investimentos imobiliários da Anbang Insurance Group, um conglomerado financeiro com vínculos estreitos com o estado chinês. Depois que a mídia reportou sobre o acordo, as negociações foram canceladas.

Publicamente, Ivanka Trump tomou uma abordagem graciosa e encantadora em direção a Pequim. Durante os encontros em Mar-a-Lago, a filha dela, Arabella, de 5 anos, estava em um quarto dourado e cantou uma canção chinesa tradicional, em mandarim, para o presidente chinês. O vídeo, que foi elogiado pela mídia estatal chinesa, foi assistido mais de 2,2 milhões de vezes no popular portal de notícias da China qq.com.

Na semana da reunião, 3,4 toneladas de bolsas, carteiras e blusas da marca Ivanka Trump chegaram aos Estados Unidos de Hong Kong e Xangai. As importações norte-americanas da mercadoria cresceram aproximadamente 40% no primeiro trimestre deste ano, de acordo com a Panjiva Inc., que mantém e analisa os registros de expedição global.

Painter, o ex-advogado do governo Bush, recomendou recusa total sobre questões relacionadas ao comércio com a China. Isso é difícil, uma vez que o comércio entre os dois países é profundo e os eles têm sido associados a outros assuntos, como a Coreia do Norte. "O perigo é que, em qualquer discussão com os chineses, uma parte ou outra pode mencionar o comércio", disse ele. "Esse é risco que pode exigir dela ou de Jared sair da sala de reunião."

Gorelick, advogada de Ivanka Trump, disse que ela e o marido evitariam áreas específicas que poderiam afetar seus negócios ou serem vistas como conflitos de interesse, mas não estão sob nenhuma obrigação legal de se afastarem de assuntos políticos, como o comércio com China. Sob as regras, Ivanka recusaria conversar sobre os impostos das roupas importadas da China, disse Gorelick, mas não sobre questões mais amplas sobre política externa. "No meio disso, você tem que avaliar caso a caso", disse ela.

Marcas registradas podem ser um sinal de ambição corporativa, embora muitos países, como a China, onde o uso indevido de marcas registradas é frequente, também permitam registros defensivos para impedir que os copistas usem uma marca.

As marcas representam implicações éticas, e possivelmente legais, para funcionários do governo porque são concedidas por estados estrangeiros e conferem o direito de monopólio de vender produtos de marca em um determinado país - um direito que pode ser extremamente valioso. Os advogados de propriedade intelectual afirmam que as marcas são um pré-requisito fundamental para o corte de acordos de licenciamento, que são a base da estratégia de negócios global da Ivanka e Donald Trump.

"A marca registrou, atualizou e protegeu rigorosamente suas marcas internacionais nos últimos anos no curso normal dos negócios, especialmente em regiões onde a violação de marcas registradas é desenfreada", disse Klem em um comunicado. Hoje, Ivanka Trump Marks LLC tem 16 marcas registradas na China e 32 pedidos pendentes, juntamente com um total de quatro marcas aprovadas desde a inauguração, de acordo com Escritório de Marcas da China.

Ao todo, eles cobrem uma ampla gama de bens e serviços, incluindo cosméticos, joias, bolsas de couro, bagagem, roupas, sapatos, varejo, spa e serviços de beleza. Não há sinal de que as recentes aprovações tenham sido particularmente rápidas. O Escritório de Marcas da China não respondeu a um pedido de comentário.

Globalmente, a empresa tem mais de 180 marcas pendentes e registradas em países como Canadá, Índia, Japão, Israel, México, Turquia e Arábia Saudita, bem como nos EUA e Europa, como mostram os registros públicos. Em dezembro, a empresa solicitou cinco marcas, cobrindo bolsas e carteiras em Porto Rico, e lingerie e outras roupas nos Estados Unidos. Após a inauguração, a empresa apresentou mais quatro pedidos para vestuário e sapatos nas Filipinas, e perfume e outros itens no Canadá.

Ivanka Trump não assinou os novos pedidos de marca registrada, disse empresa em comunicado, acrescentando que "isso não é necessariamente uma indicação de que a marca planeja lançar uma categoria ou uma loja em um território específico". Quaisquer que sejam os planos futuros, as vendas estão crescendo agora – o que ajudou, segundo alguns, para o brilho do crescimento político de Ivanka Trump.

O G-III Apparel Group Ltd., que fabrica roupas da marca Ivanka Trump, disse que as vendas líquidas para a coleção aumentaram US$ 17,9 milhões durante o ano que terminou em 31 de janeiro. A marca diz que as receitas subiram 21% no ano passado, e o início em fevereiro teve uma das “melhores performances já vistas”, de acordo com uma declaração de Klem.

Por ser uma empresa de capital fechado, a marca não tem de declarar seus ganhos ou de onde as receitas vêm. A estrutura corporativa atual do negócio de varejo de Trump é opaca. A declaração financeira de Kushner lista duas dezenas de empresas que aparecem diretamente relacionados à marca da esposa. A própria Ivanka ainda não apresentou uma declaração.

Os dados da Lyst, uma enorme plataforma de comércio eletrônico, indicam que parte desse crescimento coincidiu com eventos políticos específicos. O número de itens Ivanka Trump vendidos através do site foi 46% maior no mês em que seu pai foi eleito presidente do que em novembro de 2015.

Em fevereiro, as vendas subiram 771% em relação ao mesmo mês do ano passado, depois que a consultora jurídica da Casa Branca, Kellyanne Conway, incentivou os telespectadores da Fox a “comprar os produtos de Ivanka”. Conway foi repreendida posteriormente. O aumento parece ter se sustentado. As vendas de março na plataforma Lyst subiram 262% em relação ao mesmo período do ano passado.

“Você não pode separar Ivanka de seu papel na vida e de seu negócio", disse Allen Adamson, fundador da BrandSimpleConsulting. "Seu status de celebridade agora não é apenas alimentado por sua riqueza e sua conexão familiar, mas pelo seu enorme papel na Casa Branca. Tudo isso reflete nos produtos dela.” Adamson acrescentou que é uma vantagem competitiva que outras marcas simplesmente não conseguem corresponder - embora venha com risco.

As coisas poderiam ser de outra maneira para Ivanka. Ashley King, 28 anos, de Calabasas, Califórnia, comprou um par de sapatos e um cardigan da marca Ivanka Trump há vários anos. Mas Ashley, que votou em Hillary Clinton, disse acreditar que o papel de Ivanka na Casa Branca representa um conflito de interesses. "Isso está me incomodando cada vez mais", disse ela. Quanto aos itens Ivanka Trump em seu closet, ela disse: "Eu vou doá-los". /Associated Press

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