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Neta roubada pela ditadura militar argentina é recuperada

Ariel Palacios, correspondente / Buenos Aires - O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2014 | 19h 11

Ana Libertad nasceu em 1977 na delegacia de La Plata

BUENOS AIRES - A associação Avós da Praça de Maio anunciou nesta sexta-feira, 22, ter recuperado mais um neto roubado durante a ditadura militar argentina. 

Ana Libertad é a neta de número 115 a ser recuperada. A avó dela, Alicia Zuasnábar de la Cuadra, apelidada de "Licha", foi a primeira presidente da associação e morreu em 2008.

Filha de Elena de la Cuadra e Héctor Baratti, militantes do Partico Comunista Marxista Leninista, Ana nasceu em 1977 na delegacia de La Plata.

Elena estava grávida de cinco meses quando foi presa. Ela e o marido foram mortos pela ditadura. O corpo de Elena ainda não foi encontrado.

No início do mês, o neto da presidente da associação, Estela de Carlotto, teve sua verdadeira identidade recuperada. Guido, que recebeu o nome de Ignacio Hurban, nasceu na prisão e foi retirado da mãe, Laura, poucas horas depois do parto.

Segundo estimativas de organismos de defesa dos direitos humanos e da Anistia Internacional, a ditadura argentina se apropriou de 500 bebês. Até agora, 115 foram recuperados pelas famílias biológicas.

Os militares possuíam maternidades onde os partos eram realizados de forma clandestina. Muitas prisioneiras estavam grávidas na época da detenção. As crianças nasciam em cativeiro e as mães, dias depois dos partos, eram mortas fuziladas ou jogadas de aviões sobre o rio da Prata ou sobre o mar.

Alguns bebês eram entregues a famílias de militares ou policiais e outros foram adotadas por famílias de civis, que desconheciam sua origem.

Os generais da ditadura argumentavam que a devolução das crianças às famílias biológicas era um potencial perigo, porque quando adultas poderiam vingar-se dos assassinos dos pais. O general Ramón Camps, afirmava que a "subversão" era genética. Segundo ele, "para anular a genética deveriam ser criadas por famílias com "forte moral cristã".

Desde os anos 90, as avós da Praça de Mayo contam com um banco de dados genético para cotejar as amostras de DNA das famílias dos desaparecidos e dos antigos bebês (atualmente adultos na faixa dos 34 aos 38 anos) suspeitos de terem sido roubados quando eram recém-nascidos. As amostras ficarão guardadas até o ano 2050 para que qualquer pessoa possa checar se existem laços de parentesco.