No caminho de um sargento em fúria, a família de Wazir

Afegão perdeu 11 parentes, entre filhos, mulher e mãe, no massacre de Kandahar

ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL, KANDAHAR, AFEGANISTÃO, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h05

Quando Habib pergunta pela mãe e os irmãos, Mohammed Wazir diz simplesmente que "os soldados americanos os levaram". O menino, de 4 anos, e o pai são os únicos sobreviventes do que ficou conhecido como o massacre de Kandahar, que levou 11 pessoas de sua família em uma só noite.

Wazir visitava parentes em Spin Boldak, a três horas do vilarejo onde o crime ocorreu, quando recebeu o telefonema de um vizinho: "Todos os membros de sua família foram feitos mártires". Ele não acreditou. Pediu que o levassem de volta imediatamente, para encontrar os corpos da mulher, dois filhos e quatro filhas, mãe, irmão, cunhada e sobrinho ensanguentados, amontoados inertes num canto da casa. O de Palwasha, a caçula de dois anos, havia sido carbonizado. "Eu senti uma pressão na cabeça tão forte, mas tão forte, que minha mente parou", disse ao Estado, em um restaurante em Kandahar.

Apesar de abrigar uma base americana - de onde o sargento Robert Bales, de 38 anos, saiu durante a madrugada daquele domingo, 11 de março, para matar os 17 afegãos que encontrou, dos quais 9 crianças e 3 mulheres, em três casas - o Distrito de Panjwai é um território proibido para estrangeiros e dominado pelo Taleban. Os moradores contam que todos os dias, ao entardecer, os celulares param de funcionar, porque os insurgentes ameaçaram explodir as companhias telefônicas caso a comunicação não fosse cortada durante a noite - assim tentam evitar que os moradores deem dicas para os militares sobre sua movimentação noturna, quando saem em patrulha aterrorizando a população atrás de novos recrutas e "infiéis" que trabalham para os estrangeiros.

Quando ouviu o anúncio de um porta-voz do Taleban de que os ataques coordenados do último domingo em Cabul e outras três províncias tinham sido realizados para vingar a morte de sua família e outros civis, Wazir reagiu: "Eles não nos representam! São um problema para nós, assim como os americanos!" Após mais de uma década de guerra em resposta ao 11 de Setembro, é assim que se sente a maioria dos afegãos.

Wazir calcula ter por volta de 35 anos, mas aparenta quase o dobro. Tem a pele demasiadamente enrugada, rachada pelo sol forte, as mãos marcadas por cicatrizes, unhas encardidas da terra e o linguajar simples dos homens do campo. "Ponha-se no meu lugar. Se um homem perde onze galinhas, como se sente? Imagine então perder 11 pessoas de sua família!", ele diz, tentando dar a dimensão de sua dor com aquilo que lhe é mais familiar.

Na manhã dos assassinatos, deixou a casa bem cedo para visitar os irmãos mais novos em Spin Boldak, como fazia de tempos em tempos. Antes, tomou chá com a família reunida em círculo sob o tapete, como fazem os afegãos. Wazir beijou a mão da mãe, Shah Tarina, de 60 anos, a esposa, Bibi Zohra, e cada um dos filhos: Massoma, de 9 anos, Farida, de 6, e Nabiya, de 4, gêmea de Habib; e os adolescentes Faizullah, de 12 anos, e Ismatullah, de 13. Foi a última vez que os viu, acenando na frente da casa de pau a pique até perdê-lo de vista. Habib começou a chorar chamando pelo pai, que acabou levando-o consigo. Foi o que salvou o menino.

A propriedade onde vivia a família é tão pobre que um pedaço de pano faz vezes de porta, o que facilitou o acesso do sargento americano naquela noite. Testemunhas relataram que Bales percorreu o vilarejo de porta em porta, invadindo as casas encontradas abertas. Havia marcas de sangue na entrada, no quarto onde a mulher e as filhas dormiam e também no dos meninos. Na casa estavam ainda o irmão de Wazir, Akhtar Mohammed, de 20 anos, a mulher Bibi Nazia, de 18 anos, e um sobrinho que vivia com eles, Essa Mohammed, de 15 anos. Após serem mortos, eles foram arrastados para um canto, com cobertores e roupas deixados sobre os corpos.

Wazir não acredita que o crime tenha sido praticado pelo sargento Bales sozinho. "Um soldado sozinho não pode ter feito isso! Matá-los todos e depois carregar seus corpos para um único quarto e colocar fogo neles." Testemunhas disseram a ele ter visto 15, 20 soldados nas redondezas. Outros ouviram o barulho de helicópteros durante aquela noite, embora seja um som familiar para a maioria dos afegãos.

Um sobrevivente na vizinhança, Jan Agha, de 20 anos, que fingiu estar morto ao lado dos corpos do pai, da mãe e de dois irmãos, disse à Reuters na ocasião que viu quando o soldado agiu e ele estava sozinho. A essa altura, porém, Wahzir já não sabe mais em quem acreditar. Os rumores se espalharam feito pólvora pelo pequeno vilarejo e confundiram sua cabeça.

Desde que perdeu toda a família, ele não consegue dormir uma noite inteira. Tem pesadelos e acorda encharcado em suor. Habib chora todo o tempo e os dois se mudaram para a casa de primos, onde há mulheres para cuidar do menino. Raramente eles deixam o vilarejo. Há um riacho a poucos metros do local, onde Wazir é visto sentado todos os dias, os olhos para o nada. "Eu sou um homem sem esperança. O que mais posso fazer? Tomo medicação, mas não adianta. Às vezes acho que tenho problemas mentais. Meu pensamento não sai do lugar: como e por que isso foi acontecer comigo? Eu não tenho inimigos!"

Ele quer que o soldado americano seja levado de volta ao Afeganistão e julgado segundo as leis locais - certamente, seria executado. Há 11 anos nas Forças Armadas americanas, com três missões no Iraque, e enviado para o Afeganistão pela primeira vez em dezembro, o sargento Bales foi formalmente acusado pela morte dos 17 afegãos e tentativa de assassinato de outros 6. Ele está detido na prisão militar de Fort Leavenworth, no Estado do Kansas.

Mais de um mês após o massacre, porém, ainda há dúvidas sobre os motivos e as circunstâncias das mortes. Como permitiram que um sargento deixasse sozinho a base? Como ele pode caminhar despercebido em uma área dominada por insurgentes e largamente vigiada por militares? "Até que consiga descobrir o que aconteceu naquela noite, eu não vou descansar. Estou arrasado, sob forte pressão, mas não vou descansar. Nunca imaginei que perderia toda a minha família em uma única noite."

Em um encontro no palácio presidencial, o presidente Hamid Karzai prometeu a Wazir que o caso seria esclarecido e os responsáveis julgados. "Mas eu só confio mesmo em Deus. E só em Deus. E deixe que ele opere a revanche."

Wazir conta nunca ter sido procurado pelos EUA ou pelo Taleban. "Ainda que me dessem os Estados Unidos, ainda assim eu não descansaria. Não significaria nada para mim", diz. "O que eles fizeram com minha família me ensinou que eles (os EUA) não foram capazes de acabar com o Taleban, então, sua revanche é contra a população."

Catástrofes em série. O massacre de Kandahar foi a maior tragédia de uma série de episódios que atingiram em cheio as já frágeis relações dos EUA com o governo afegão e a população civil. Em janeiro, os afegãos se revoltaram com a publicação de um vídeo em que soldados americanos aparecem urinando sobre corpos de supostos insurgentes Taleban. Em fevereiro, a queima de cópias do Alcorão em uma base dos EUA provocou uma onda de protestos que durou seis dias e deixou mais de 30 mortos. Na quinta-feira, o jornal Los Angeles Times divulgou novas fotos de soldados americanos exibindo pedaços de corpos que seriam de três militantes suicidas.

Em uma declaração no mesmo dia, o presidente Karzai disse que a única forma de evitar tais erros era a saída "acelerada" das forças internacionais. Em ano de eleição, o presidente Barak Obama ainda espera uma retirada digna, mas isso parece cada vez mais difícil.

O ataque coordenado de domingo contra o Parlamento, embaixadas e a base militar das Forças de Assistência à Segurança (Isaf, na sigla em inglês) foi mais uma clara demonstração de que a insurgência continua forte. As forças de segurança afegãs conseguiram controlar a situação, feito celebrado como vitória por oficiais americanos e afegãos. Mas isso não reduziu a sensação de vulnerabilidade da população, que se viu sitiada durante 18 horas de confronto no coração da capital, sede do governo e supostamente a área mais segura do país, até o fim da operação que terminou com a morte de 11 policiais e 26 insurgentes.

"Os americanos disseram ter vindo para nos trazer paz e segurança, mas só trouxeram mais violência. É melhor que vão embora de uma vez para não criar mais problemas e antes que outro soldado mate mais afegãos inocentes como minha mulher, meus filhos, minha mãe..." Wazir chora. "Os americanos perderam a guerra! O Taleban não tem tanques, não tem aviões. Apesar disso, eles não foram capazes de vencê-los em dez anos de guerra. Então, voltam sua ira contra nós, os civis. Toda vez que meu filho chora pela mãe e me pergunta onde ela está, só o que eu vejo na minha frente são aqueles corpos. Então, digo a ele apenas que os americanos a levaram."

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