REUTERS/Rodrigo Garrido
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No Chile, Piñera terá desafio de unir moderados e extrema direita

Com Congresso dividido e uma disputa interna na coalizão que o elegeu, novo presidente do Chile precisará negociar com partidos

O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2017 | 21h27

SANTIAGO - O novo presidente do Chile, Sebastián Piñera, terá dois desafios conflitantes logo no começo de seu segundo mandato: buscar apoio do centro no Parlamento para cumprir suas promessas e, ao mesmo tempo, manter o apoio da extrema direita que o ajudou a garantir a maior votação de um presidente na história do Chile desde a redemocratização e a vitória sobre o governista Alejandro Guillier.

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“Vou propor grandes acordos para enfrentar e resolver os grandes problemas que afligem tantos chilenos”, afirmou Piñera na segunda-feira, dia 18, em um discurso depois do resultado. “Quero reafirmar um compromisso com o diálogo e os acordos.”

Construir essas pontes será uma tarefa árdua. Em seu primeiro mandato, entre 2010 e 2014, Piñera tinha apoio da Câmara dos Deputados e do Senado, algo que não terá desta vez. Na Câmara, dos 155 integrantes, 72 são da Chile Vamos, coalizão de Piñera. No Senado, o desafio será maior: entre os 43 senadores a Chile Vamos, de centro-direita, e a Força da Maioria, da centro-esquerda, tem 19 assentos. 

Outro obstáculo está dentro de sua coalizão. Há uma disputa de poder entre a direita conservadora, representada pela União Democrata Independente (UDI), e o partido Evolução Política (Evópoli), mais liberal. Piñera assegurou aos partidos da coalizão que eles terão um papel preponderante na formação do novo governo, mas agrupar visões opostas custará um preço. Além disso, o candidato ultraconservador e defensor do ditador Augusto Pinochet, José Antonio Kast, que apoiou Piñera, disse que não pretende participar do governo. 

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Menos de quatro anos depois de deixar o governo, Piñera conseguiu se eleger com a maior votação da história das eleições chilenas. Seu carisma e sua posição de liderança ajudaram a convencer o eleitor chileno de que ele é a melhor opção em um momento de estagnação econômica do país. Com uma fortuna estimada pela revista Forbes em US$ 2,7 bilhões (mais de R$ 8,6 bilhões), a sétima maior do Chile, Piñera começou a construir sua fortuna em 1978, ao comprar os direitos de representar no Chile os cartões de crédito Visa e Mastercard. De lá para cá, seus negócios não pararam de crescer. 

Com 68 anos recém-completados e casado desde 1973 com Cecilia Morel, com quem tem quatro filhos, Piñera nasceu em Santiago em 1949. Ele é o terceiro dos seis filhos de Magdalena Echenique e José Piñera Carvallo, um engenheiro e diplomata que foi um dos fundadores da Democracia Cristã chilena, o partido social-democrata que por décadas representou a classe média. Piñera nunca foi muito afeito ao centro da Democracia Cristã e sempre militou nas hostes dos partidos conservadores chilenos. 

O sucesso econômico do Chile em seu primeiro governo pode ter sido o principal motivo de sua segunda vitória. No primeiro mandato de Piñera, o Chile cresceu pouco mais de 5% ao ano na média entre 2010 e 2014, e houve a criação de quase 4 milhões de empregos. “Os chilenos acreditaram no discurso da gestão e a lembrança do primeiro mandato de Piñera, e preferiram assegurar o crescimento econômico do que eleger novos políticos”, afirma Eugenio Tironi, professor de Ciências Sociais da Universidade Católica do Chile. “Essa visão fez os chilenos perdoarem os erros do passado de um integrante de uma classe dirigente que muitos deles detestam, em troca de uma certeza de crescimento econômico”, acrescentou. / AFP e AP

 

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