Fethi Belaid/AFP
Fethi Belaid/AFP

Quarteto que garantiu democracia na Tunísia leva Nobel da Paz 2015

Grupo formado por sindicatos patronal e de trabalhadores, pela Ordem dos Advogados da Tunísia e pela Liga Tunisiana de Direitos do Homem foi aclamada pela "construção de uma democracia plural"

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

09 Outubro 2015 | 06h29

(Atualizada às 07h15) PARIS - Uma instituição de diálogo político da Tunísia, país que deu início à Primavera Árabe em 2011, recebeu na manhã desta sexta-feira, 9, o Prêmio Nobel da Paz "por sua contribuição decisiva para a construção de uma democracia plural". O Quarteto Nacional de Diálogo Tunisiano foi formado com o intuito de estabelecer pontes entre o partido islamista Ennahda e a oposição laica, de forma a retirar o país de uma profunda crise política iniciada em 25 de outubro de 2013, e que pôs em risco o sucesso da abertura democrática.

O propósito do grupo foi estabelecer uma câmara de diálogo que permitisse a formação de um governo independente no intervalo de três semanas, de forma a permitir a aprovação de uma nova Constituição, que se mostraria um passo importante na consolidação da incipiente democracia na Tunísia.

Integram o Quarteto a União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT), maior sindicato do país, seu equivalente patronal, a União Tunisiana da Indústria, do Comércio e do Artesanato (Ugica), a Ordem dos Advogados e a Liga Tunisiana dos Direitos do Homem. A partir de formação do grupo, o diálogo nacional conseguiu superar o momento de tensão política causado pelo assassinato de Mohamed Brahmi, um líder político secular e progressista que havia sido assassinado na cidade de Ariana, em 25 de julho de 2013. O crime, atribuído a movimentos extremistas islâmicos, envenenou ainda mais a cena político-partidária da Tunísia, já afetada pela pressão então crescente de grupos jihadistas que desejavam tomar o poder e impor a charia, a lei islâmica, como base da constituição. 

No comunicado distribuído à imprensa, a organização do Prêmio Nobel da Paz afirma que "essas organizações representam diferentes setores e valores na sociedade tunisiana: a vida profissional e a proteção social, os princípios de primado do direito e dos direitos humanos". "Sobre essas bases, o Quarteto exerceu seu papel de mediador e a força motora para fazer avançar o desenvolvimento democrático pacífico na Tunísia, com uma grande autoridade moral", completa a organização.

Na prática, o prêmio também representa um elogio e um suporte à Primavera Árabe, nascida na Tunísia em dezembro de 2010, e que acabou se irradiando pelo Norte da África e pelo Oriente Médio. Países como a Líbia, o Egito e a Síria tiveram destinos diferentes porque, sem corpos políticos consistentes para intermediar o diálogo, caíram em guerras civis ou enfrentamentos que minaram definitivamente ou deixam em suspense a capacidade dessas sociedades realizarem a transição para a democracia. "Em muitos desses países, a luta pela democracia e os direitos fundamentais sofreu uma parada ou revezes súbitos", lembra a organização. "A Tunísia, no entanto, conheceu uma transição democrática fundada sobre uma sociedade civil dinâmica com demandas por respeito aos direitos humanos fundamentais."

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